Se os turistas desistirem de nós

Com os impossíveis entraves que constantemente surgem a potenciais negócios e a censura ao bom desempenho das empresas bem enraizada na sociedade - a começar na mesa do café e a terminar nos governantes, os lucros são vistos como algo sujo, obtido à custa da exploração de trabalhadores e clientes, prova final de más práticas e provável ação criminosa -, o turismo volta a surgir como o salvador da pátria. E, no entanto, é tratado com desprezo por quem o devia trazer nas palminhas.

Num país que exige melhores salários mas não admite bons resultados às empresas, que quer que os empresários invistam mais mas castiga o bom desempenho com impostos, taxas e taxinhas, que deseja descarbonizar-se mas não suporta que os combustíveis fiquem mais caros, que defende a eletrificação da economia mas não aceita que se explore lítio - muito menos de invista em fábricas para transformá-lo em baterias e vendê-lo para a Europa com o maior valor acrescentado possível -, viver à custa de serviços é a alternativa que nos resta. E viveremos felizes com isso - pelo menos até percebermos que perdemos todas as oportunidades de ganharmos valor noutros setores, até as indústrias desistirem todas de aqui tentarem produzir e as empresas que geram produto real se mudarem para outros destinos europeus.

O turismo é e deve ser crescentemente importante na nossa economia - o que não é sinónimo de ser a exclusiva atividade geradora de valor... Mas mesmo com a sorte que temos de ter empresários de visão e condições naturais e de contexto únicas, não há garantias.

Não é garantido, por exemplo, que continue a haver investimento quando se muda constantemente as regras a meio do jogo (leis, impostos, benesses), quando os licenciamentos se arrastam por anos e quando se alguma coisa correr mal é garantido que levará uma década a resolver o caso em tribunal.

Não é seguro que os turistas vão continuar a escolher-nos quando o aeroporto de Lisboa voltar a rebentar pelas costuras e isso provocar atrasos nos voos e filas intermináveis para entrar ou sair do país - o que se prevê que aconteça já neste verão.

Não é certo que consigamos atraí-los se as decisões estruturais capazes de resolver problemas antigos e cada vez mais notórios são sucessiva e inexplicavelmente adiadas.

Com uma maioria absoluta nas mãos e a crença de que o turismo voltará neste ano a recordes, o governo fez regressar o novo aeroporto de Lisboa à estaca zero - temos tempo, vamos voltar a estudar tudo, escreveu no OE2022, um par de meses depois de ter chegado a mudar leis para tirar o poder de veto às autarquias, dada a urgência do tema. E não contente, remeteu o turismo para um canto entre vírgulas de uma de três Secretarias de Estado num ministério despojado de poderes executivos.

Entre 2010 e 2019, o número de dormidas em Portugal duplicou e as receitas turísticas subiram a uma média de 10% ao ano, para 18,4 mil milhões de euros. Mas não foi por acaso que o país se tornou no mais premiado e apetecível destino turístico - foi fruto de trabalho técnico e de divulgação, de alteração de pressupostos e da organização de um setor que durante décadas foi visto como tendo grande potencial, mas só a partir de 2012 verdadeiramente começou a conseguir tirar dele partido. Perder esse capital será muito mais fácil do que foi ganhá-lo. E é esse o risco que corremos ao desinvestir, ao desleixarmos esforços e atenção ao setor de que depende um quinto da riqueza que produzimos.

Se os turistas se forem, o que nos restará?

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