Segundo confinamento: cá vamos nós outra vez

O ano de 2020 acabou com uma esperança renovada: a tão desejada vacina foi aprovada. Já o ano de 2021 começou promissor com as notícias do início do processo de vacinação. Começamos a sonhar com o retorno a uma possível normalidade; estar com os amigos, voltar a abraçar os familiares, desfrutar as pequenas coisas da vida sem medo. De repente, os casos disparam (mais de 10000 por dia). As notícias não são encorajadoras: os hospitais e os profissionais de saúde estão no seu limite, começamos a ver pessoas perto de nós a adoecer ou partir. Somos assombrados novamente pelas mesmas dúvidas e questões: a nossa economia irá aguentar? E a saúde mental das pessoas? Fazemos contas de cabeça e percebemos que nos esperam tempos muito desafiantes. Cá estamos outra vez.

O segundo confinamento chegou. Estamos preparados? Munimo-nos de artilharia pesada: livros, cursos, Netflix, pantufas, passeios higiénicos. Sem esquecer dos maiores aliados: máscara e álcool-gel. Bem-vindos ao próximo nível do Jumanji.

Quais são os principais desafios para os líderes?

Já esgotámos a criatividade a inventar atividades para mantermos as nossas pessoas motivadas. Lemos artigos, ouvimos os discursos motivadores. Ao contrário dos nossos avós, temos uma série de ferramentas (a maioria gratuitas) sem as quais não podíamos viver: Teams, Zoom, Skype. Temos igualmente uma oferta gigante online de ideias e atividades que podemos trabalhar em equipa. A questão crucial mantém-se: como chegar - verdadeiramente - às pessoas que estão do outro lado? Como sabemos que estão presentes e envolvidas?

Estamos fartos. É mesmo essa a palavra - fartos. Cansados da pouca flexibilidade que o confinamento nos oferece. Sentimos que vivemos em repetição. As rotinas são saudáveis e oferecem-nos estrutura, mas a pouca elasticidade pode deixar-nos claustrofóbicos. Como inovar dentro de quatro paredes (mesmo tendo a sorte de ter um quintal)?

A pessoa que está do outro lado do computador não é apenas um colega. Muito mais do que profissionais, são pessoas como nós. Pais, filhos, maridos/esposas. Pessoas com os mesmos medos e fragilidades. A separação física entre casa e trabalho não é mais possível. Os dois convivem no mesmo espaço e, por vezes, podem colidir. Quantos de nós tem aquele colega que se desdobra entre reuniões e cuidar da família? Ou o que está completamente isolado, dias e dias, sem falar com uma pessoa cara a cara. Qual dos dois tem mais coragem? Diferentes desafios exigem diferentes tipos de coragem. Não esqueçamos que somos distintos, mas partilhamos a mesma narrativa.

Se está numa posição de liderança - não tente levar o barco sozinho. É impossível. Não coloque em si a responsabilidade de dar o exemplo e ter sempre uma palavra motivadora. Seja honesto e transparente com a sua equipa. Deixe-os saber que também tem as mesmas fragilidades e que precisa da sua força e energia.

Sugestões

- Espaços e horários

Regra básica: é importante haver uma separação entre o espaço de trabalho, refeições e lazer. Respeite as fronteiras.

Mantenha um horário de trabalho e respeite-o. Uma das vantagens do teletrabalho é a flexibilidade de horários, mas defina as horas em que começa e acaba. É possível que façamos mais horas por sentirmos que não há coisas muito mais interessantes para fazer depois. Mas é importante saber "desligar o botão". Após o horário de trabalho terminar, faça algo que goste ou simplesmente atire-se para o sofá e dê-se ao luxo de descansar sem culpa.

Deixe claro à sua equipa que as reuniões de trabalho e eventos são necessárias e todos devem estar presentes. Mas ofereça-lhes a flexibilidade de definirem o seu horário. Trabalhe com base na confiança (não precisam de ter sempre o símbolo do Skype a verde para demonstrarem que estão a fazer as suas tarefas).

- Eventos de Team Building

Cada um está na sua bolha. Mas continuamos a trabalhar em equipa. Mais importante: continuamos a ser uma equipa. Não basta criar atividades. O fundamental é promover momentos de partilha. É possível fazê-lo de modo simples e natural. Após o primeiro sync de equipa do dia, convide-os para ligar as câmaras e beber um café online. São quinze minutos antes de regressar ao trabalho que permitem respirar e ganhar energia para começar o dia.

Todos temos diferentes conhecimentos e skills. Desafie cada membro a partilhá-los em sessões entre 25-30 minutos (na pausa do almoço, por exemplo) com o resto da equipa. Não é necessário que seja um tema exclusivo do projeto. Pode ser algo dentro da área das soft-skills ou um interesse pessoal. O objetivo é que traga algo interessante e que as pessoas possam aplicar no dia a dia.

Outro exemplo interessante pode ser o convite para um copo digital ao final do dia. Deixe claro que não é obrigatório comparecer, mas que seria uma boa oportunidade para relaxar e conectar. Não precisa de ter uma agenda com um programa definido nem bombardear com perguntas no caso de haver silêncio. Deixe fluir. Permita que as pessoas se conheçam e se sintam
à vontade a falar dos temas mais aleatórios. Promova um ambiente informal onde possam surgir desabafos e piadas. Uma piada no momento certo pode salvar o dia. O bom humor é tão eficiente em situações stressantes como o álcool-gel é para o Covid.

É importante sentirmos que pertencemos a algo e representamos um papel ativo. Como seres humanos, precisamos de sentir que estamos a criar algo em conjunto (projeto, produto, equipa). Promova sessões de brainstorming mensais em que a equipa participe proativamente na melhoria dos processos, produto e da própria equipa. Envolva todos os membros. Puxe pela sua criatividade e iniciativa. A simples tarefa de organizar um organigrama (com fotografias divertidas), com a descrição de cada membro (inclusive interesses pessoais) ou um calendário de equipa com férias, aniversários e datas importantes do projeto, promove confiança e sentimento de pertença.

Palavras-chave: partilha e criar em conjunto.

Exemplos de atividades de team building e energizers em museumhack.com, teambuilding.com e sessionlab.com. E aqui fica também um exemplo de ferramenta de brainstorming.

Dica: se a equipa está mais cansada ou desmotivada, pode começar com um energizer de manhã. Estes também podem ser muito úteis se utilizados como pausa durante reuniões muito longas que exigem muita concentração.

- Peer review

É uma prática muito utilizada em desenvolvimento de software, mas pode ser aplicada em todas as áreas tanto técnicas como funcionais. Em tempos de teletrabalho, esta prática ganha ainda mais sentido pois promove uma interação e interdependência entre colegas. Fomenta a comunicação e feedback construtivo, para além da melhoria da produtividade e qualidade de entregas.

- One on One

Tão importante como a relação de equipa, é a relação que cada líder tem individualmente com cada um. Convide-o para uma sessão One on One. Aqui a regra é: deixe-o falar! Ofereça-lhe todo o tempo de antena a que tem direito. Permita que partilhe o que está a sentir em relação ao projeto, equipa, mas também como se sente a nível pessoal e como o poderá ajudar. Mesmo que não consiga oferecer uma solução imediata ou plano, ser um bom ouvinte (e interessado) faz toda a diferença.

Não há dicas infalíveis nem receitas. Cada pessoa é uma pessoa. Como a maioria das coisas, aprendemos com a experiência e tentativa erro. Não vamos acordar todos os dias com uma energia extraordinária e uma atitude positiva que até inspire as pedras da calçada. Vivemos tempos incertos e desafiantes (é quase tão complicado prever a duração do confinamento como planear as férias naquele sítio de sonho). Vamos ter oscilações no nosso humor e concentração. Não se culpe, não exija de si atos heroicos. Não está tudo bem (e nem vai ficar tudo bem tão depressa). Mas continuamos a andar. A vida não parou, apenas mudou. Respeite o seu tempo e a sua energia. Não tenha medo de parar se necessário. "A pausa faz parte da música".

Senior Business Analyst and Scrum Master na InnoWave

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