Sem fim lucrativo?

Se um vendedor me telefona a oferecer um brinde, desconfio que me
vai ludibriar. Se me oferecem um investimento com retorno alto e
garantido, sei que é melhor virar as costas. E, se lido com uma
organização sem fins lucrativos, em vez de baixar a guarda e tentar
ajudar, penso: que grande perigo.

Existem muitas pessoas por trás de uma organização. Cada uma dá
o seu contributo e é recompensada em troca. Os trabalhadores dão o
seu esforço e competências e recebem salário. Os credores dão
fundos e recebem juros. Os acionistas dão capital e recebem os
lucros.

Nas organizações sem fins lucrativos, não existem acionistas.
Por isso, muitos pensam que estas instituições têm menos interesse
em aproveitar-se delas. Mas, pelo contrário, a organização
continua a querer extrair o máximo de receita vinda do meu bolso.
Pode não pagar lucros, mas os trabalhadores querem melhores salários
e edifícios luxuosos, os gestores querem bons carros e mordomias, e
os credores querem receber os empréstimos de volta.

Nas organizações sem fins lucrativos que só têm dois ou três
colaboradores, a própria distinção entre trabalhador, gestor e
proprietário é ténue. Todos querem uma organização bem sucedida,
o que, na maioria das vezes, implica gerar mais receita e criar mais
valor. Tal e qual como numa empresa em busca de lucro.

Pelo contrário, eliminar a busca do lucro cria incentivos para um
desempenho pior. Uma virtude do lucro é que ele só existe depois de
todos os outros atores serem pagos. Logo, uma empresa que busca o
lucro tenta fazer o melhor que pode para recompensar todos. Numa
organização sem fim lucrativo, ninguém manda porque são todos
iguais e os erros de cada um são partilhados na compensação de
todos. Numa empresa, o proprietário manda e faz tudo o possível
para que não haja ineficiências pois cada euro desperdiçado
subtrai um euro aos seus lucros.

A crise financeira em Espanha é um bom exemplo destes princípios.
Os problemas no sistema bancário concentraram-se nas Cajas, bancos
regionais que cresceram a um ritmo estonteante financiando a
construção e o imobiliário. As Cajas eram instituições sem fins
lucrativos, que existiam para ajudar a comunidade. Na prática, isso
significou ajudar os seus bancários a ter empregos confortáveis,
ajudar os seus gestores a receber boas compensações e ajudar os
políticos locais a ganhar eleições financiando maus projetos.

Nos seus investimentos e práticas, as Cajas foram tão más ou
piores do que os bancos, supostamente selvagens e obcecados com
lucros no curto prazo. Pior, porque não tinham acionistas, ninguém
despedia os administradores incompetentes ou bloqueava desvarios.

Se uma organização sem fins lucrativos não é muito diferente
de uma empresa, bancos que não querem saber de lucros são animais
perigosos. Em Espanha, levaram à ruína do país. No centro da
suposta crise do capitalismo selvagem de mercado estavam nem mais nem
menos do que as instituições pós-capitalistas alegadamente
benévolas.

Professor de Economia na Universidade de Columbia, Nova Iorque

Escreve ao sábado

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