Emigrar

Ser brasileiro sai caro

Se um pai brasileiro quiser oferecer uma Playstation4 (PS4) da Sony ao filho pelo aniversário sai mais barato entrar num avião para, por exemplo, Miami, adquiri-la lá e voltar do que comprá-la na loja da esquina. O Índice Playstation 4, que se juntou nos últimos anos a outros medidores não convencionais, revela que o preço da consola no Brasil é quatro mil reais (cerca de 1300 euros) contra, em valores comparados, 867 reais nos EUA, 1118 reais na Europa ou 2406 reais na Argentina. Mas revela sobretudo muito sobre a carga tributária, a importação e a burocracia brasileiras.

De acordo com a Sony, 21,5% do preço da PS4 corresponde ao que a
Sony Brasil paga por cada unidade importada. Este valor é somado às
margens dos lojistas e distribuidor, num total de 22%. Os impostos
cobrados para trazer o produto para o país – do imposto de
importação à margem de valor agregado, passando por siglas
diversas como ICMS, COFINS, PIS ou IPI – são responsáveis por 63%
do preço final. Esse preço final deveria portanto até ser superior
aos tais quatro mil reais mas a empresa reduz para o número redondo.
O gestor da Sony Brasil, Anderson Gracias, disse ao site da “Globo”
que mesmo com o preço elevadíssimo “a empresa não ganha um
centavo no Brasil, aliás, até perde dinheiro por culpa do maior
problema do país: a cascata de impostos”.

Além do Índice Playstation de comparação de preços, outros
como o Índice iPhone, o Índice Big Mac ou o Índice Zara sublinham
o problema.

Segundo contas do gigante espanhol do vestuário, um relatório
baseado em 14 itens, de blazers a sapatos, e com dados de 22 países
de quatro continentes coloca o país no topo dos preços. Exemplo no
jornal O Estado de São Paulo: um vestido que em Espanha (ou
Portugal) é vendido a 55 dólares, nos EUA custa 79 e no Brasil 171.

No Índice Big Mac, o Brasil aparece num mais animador quinto
lugar mas atrás apenas de países com nível de vida esmagadoramente
superior, como Suíça, Suécia e Noruega, e da Venezuela, cujo
artificial câmbio oficial adultera qualquer comparativo.

No Índice iPhone, os brasileiros voltam a estar perto do topo.
Mas com a agravante de ter a tarifa de telefone móvel mais cara do
mundo, de acordo com a União Internacional de Telecomunicações. No
Brasil paga-se 0,71 dólares por minuto de ligação, só mais um
cêntimo do que na Bélgica ou na Nova Zelândia mas cinco vezes o
que se paga em Espanha e 70 vezes o preço da tarifa na Índia.

Jogos de computador, vestuário e telefones da última geração
pagam mais impostos por serem considerados supérfluos. A fast food
também tem tributos acrescidos. Mas e os bens essenciais?

Ora os preços dos alimentos no Brasil sobem há cinco anos
consecutivos uma média de 9% ao ano – 23% se somados apenas 2013 e
2014.

Batata, tomate, laranja, peixe, feijão, ovos, leite e café, sem
os quais, ao contrário da PS4, ninguém sobrevive sobem de preço
por culpa de problemas climáticos pontuais mas também por causa do
aumento dos salários da mão de obra e de um conjunto macro e
microeconómico de fatores interligados.

O preço dos bens supérfluos incomoda a parte da população com
salários mais altos, uma faixa que, na sua maioria, já não
corresponde ao eleitorado tradicional do PT e por isso não
representará perda de votos significativa. Mas se um dia se
justificar ir de avião a Miami comprar um quilo de tomates, a
reeleição de Dilma Rousseff estará perdida.

Jornalista

Escreve à quarta-feira

Crónicas de um português
emigrado no Brasil

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
O ministro das Finanças, Mário Centeno, intervém durante a  conferência "Para onde vai a Europa?", na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, 22 de março de 2019. MÁRIO CRUZ/LUSA

Próximo governo vai carregar mais 8 mil milhões em dívida face ao previsto

O ministro das Finanças, Mário Centeno, intervém durante a  conferência "Para onde vai a Europa?", na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, 22 de março de 2019. MÁRIO CRUZ/LUSA

Próximo governo vai carregar mais 8 mil milhões em dívida face ao previsto

Os postos de combustíveis no país estão a ser abastecidos com a máxima urgência. Fotografia: JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

Motoristas asseguram combustível na Páscoa

Outros conteúdos GMG
Conteúdo TUI
Ser brasileiro sai caro