Opinião

Silicon Valley foi a exame. Chumbaram todos

Mark Zuckerberg

Não é por acaso que o poder desenfreado destes titãs gerou o que se chama informalmente de “zona de morte” em Silicon Valley

A deferência com que os CEO das quatro grandes tecnológicas de Silicon Valley responderam aos congressistas norte-americanos foi notável. Todas as perguntas eram excelentes e os chefes da Amazon, Google, Facebook e Apple sentiam-se felizes pela oportunidade de responderem. Talvez por baixo da secretária, que não se via na transmissão em vídeo dos interrogatórios, os CEO estivessem a fazer um manguito aos políticos, mas das suas bocas saiam vénias em forma de palavras. Uma fantochada, nalguns momentos. Uma crise séria de responsabilidade, em quase todos.

A audiência de Jeff Bezos (Amazon), Mark Zuckerberg (Facebook), Tim Cook (Apple) e Sundar Pichai (Google) no Comité Judiciário da Câmara de Representantes foi o último passo antes de se conhecerem as conclusões do subcomité que está a investigar as empresas por práticas anticoncorrenciais. A investigação dura há um ano e, pelo que se viu na audiência, as evidências são condenatórias.

Os CEO que concentram uma grande porção do poder em Silicon Valley foram evasivos nas respostas. Não conheciam os casos específicos que lhes eram apresentados; não sabiam pormenores; não tinham memória de certos acontecimentos. É difícil apanhar alguém em perjúrio se a pessoa que manda naquilo tudo parece não saber detalhes de nada.

Mas houve algumas admissões importantes. Mark Zuckerberg não negou que a compra do Instagram, em 2012, foi uma forma de esmagar o perigo de um concorrente com muito potencial. Jeff Bezos admitiu que, apesar de haver uma política de não-utilização de dados de vendas de terceiros na Amazon, é possível que haja brechas e vazamentos de informação. Tim Cook não conseguiu explicar porque é que certas apps são recusadas na App Store da Apple e outras do mesmo teor não. Sundar Pichai titubeou ao defender o monopólio da Google nos motores de busca e explicar as práticas questionáveis que o subcomité descobriu ao longo da investigação.

David Cicilline, representante democrata que lidera o processo, afirmou alto e bom som que estas tecnológicas têm demasiado poder, abusam dele e não podem continuar a escapar ilesas. Os congressistas mostraram vários casos específicos de pequenas empresas que têm sido pressionadas, achincalhadas ou mesmo escorraçadas do mercado pelas gigantes. Foi até mencionado o exemplo da empresa portuguesa DefinedCrowd, que viu a Amazon Web Services lançar ferramentas semelhantes às suas depois de o braço de investimento da Amazon, Alexa Fund, ter tido acesso à propriedade intelectual da startup.

Apesar de serem uma espécie de porteiros da Internet, com poder para definir quem entra, quem sai e quem paga quanto por isso, estes CEO apresentaram-se ao escrutínio como fazedores. Lembraram os inícios humildes das suas empresas, como laboraram para fazerem os seus negócios crescer, e, de certa forma, como mantêm o espírito de startup com que tudo começou.

O argumento vai no sentido de se mostrarem na fase David apesar de hoje serem Golias. Tentaram convencer os legisladores que, na verdade, não têm assim tanto poder quanto isso e os consumidores podem escolher outros serviços. Ninguém é obrigado a usar o Google nem a ter um iPhone. É verdade. Mas isso não significa carta-branca para abusar dos terceiros que compõem estes ecossistemas. Nenhuma startup é obrigada a vender o negócio ao Facebook, é verdade. Mas isso não significa que a rede social possa andar livremente à procura de potenciais concorrentes para comprar e esmagar, aludindo ao seu poder para forçar fundadores a venderem as suas criações.

Se pusermos de lado as fantasias persecutórias de alguns representantes republicanos, que usaram esta audiência para se queixarem de que as ideias conservadoras são censuradas pelos papões de esquerda, vemos que esta é uma oportunidade única de endireitar o navio. A auto-regulação não vai funcionar, por isso será necessário tomar medidas – nalguns casos drásticas – para impedir a continuação das práticas mais grotescas das gigantes do sector. É certo que os consumidores beneficiaram muito de todas estas empresas e ninguém quer ficar sem o hipermercado gigante da Amazon ou a montra do Instagram.

No entanto, não é por acaso que o poder desenfreado destes titãs gerou o que se chama informalmente de “zona de morte” em Silicon Valley. Uma startup que crie algo inovador e entre no radar das gigantes como potencial concorrente cai nestas areias movediças – porque as grandes tecnológicas, as “big tech”, tornaram-se exímias em identificar e neutralizar startups que possam desafiá-las. Copiam funcionalidades ou tentam comprá-las ainda pequenas, antes que se tornem uma ameaça. Isto faz com que os fundos de investimento estejam menos inclinados para financiar startups na “zona de morte”, porque sabem que há um risco real de que uma “big tech” as reduza a pó.

Como tal, empresas que geraram tanta inovação são agora máquinas exterminadoras e isso é mau para o ecossistema no longo prazo. O congresso norte-americano sabe que tem de tomar medidas. Mas nenhum gigante vai ao chão sem deixar um rasto de sangue.

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