Opinião: Rosália Amorim

Silly season? Este é o agosto mais sério das nossas vidas

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Concessionários da praia da Quarteira no Algarve, realizam os últimos preparativos e adaptam-se às novas imposições da Direção Geral da Saúde para o início da época balnear devido à pandemia provocada pela covid-19. (LUÍS FORRA/LUSA)

O mês de agosto começa hoje, mas a calmaria e descontração com que a silly season habitualmente nos brinda desta vez não se sente. O ar está pesado, o brilho do sol encobriu e este é provavelmente o agosto mais sério das nossas vidas. Os fait divers parecem estar em vias de extinção dos alinhamentos dos noticiários. Sem esquecer os incêndios, a crise sanitária, económica e social tomou conta do dia-a-dia dos portugueses.

Neste verão podemos escolher se queremos acreditar numa visão mais otimista assente na ideia de que o pior já passou, está na hora de ir a banhos e depois logo se vê; ou se preferimos acreditar uma visão mais pessimista assente na ideia de que o pior ainda está para chegar se vier aí uma segunda vaga de covid-19, no outono-inverno. A realidade obriga-nos, creio eu, a não descartar, de todo, este segundo cenário.

Qual é o quadro que conhecemos até hoje: um índice de contágio volátil, que ora sobe ora desce, qual ‘la donna à mobile, qual piuma al vento’, de Verdi. A pauta tem agora notas de incerteza e baixo índice de confiança. Notas que em nada ajudam a economia a ressuscitar.

A realidade que conhecemos até aqui é ainda marcada por uma queda do produto interno bruto (PIB) nunca antes vista ou, sequer, prevista. Portugal acaba de registar a quarta maior queda do produto da zona euro e os nossos parceiros comerciais (Espanha, França, Alemanha e Itália) são estão entre os principais afetados.

Os valores, que foram anunciados esta sexta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), são os mais baixos de que há registo desde o ano de 1977, quer na variação homóloga (-16,5%), quer na variação trimestral (- 14,1%) do PIB. As séries históricas do INE e também do Banco de Portugal nunca viram tais números.

Antes, já as estimativas da União Europeia apontavam um caminho mais difícil a percorrer do que aquele que era previsto pelo governo português. No final de 2020 a contração prevista pela UE era de -9,8% em vez dos -6,9% apontados pelo executivo de António Costa, números apelidados de pessimistas pelo governo e não só.

Hoje o apagão económico continua. Era preciso que o verão conseguisse ressuscitar a economia, o que, como sabemos, não está a acontecer para que as previsões ditas pessimistas fossem, afinal, uma boa notícia. Mas o turismo mantém-se paralisado e perdido que está o mês de agosto, perdido que está o verão. Este é apenas um dos setores que está ligado ao ventilador, mas há muitos mais.

Só uma forte dinâmica económica daqui até dezembro nos poderia levar a brindar, com convição, no próximo ano novo. 2021 vai ser o ano do teste do algodão, como já aqui escrevi. E o algodão não engana: vai ser determinante muita disciplina e transparência no uso dos fundos da União Europeia para dar a volta por cima, recuperar o emprego e as empresas e voltar a colocar a economia nos carris. Sem deixar que as eleições autárquicas desviem o país dessa missão.

Disto isto, muitas empresas já teriam fechado e um exército de desempregados percorreria as ruas se não tivéssemos assistido à forte intervenção do Estado. Independentemente da cor política do executivo em exercício (e naturalmente usando a contribuição dos impostos pagos por todos nós), conseguiu-se conter algum do impacto da pandemia e evitar que muitos portugueses estivessem já a passar fome. Mas ainda há tanto por fazer que é importante não nos distrairmos nesta silly season e perceber rapidamente que o maior esforço começa agora.

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