Smart Home: trendy ou must?

Hoje em dia, quem se interessa por tecnologia estará já familiarizado com o termo Smart Home, que foi surgindo e substituindo lentamente ao longo dos últimos anos o termo Domótica no dialeto comum da maioria dos seus utilizadores. Recordo-me do entusiasmo do meu primeiro contacto com o tema, há cerca de 18 anos, e ainda como estudante de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores no Porto, em que através de uma aplicação web consegui ligar e desligar uma luz. Tão simples como isto. Algo me dizia na altura que efetivamente as casas seriam muito diferentes no futuro. Acredito que não me enganei, mas o que mudou realmente entretanto?

A grande diferença está na abrangência e na capacidade de entendimento que os sistemas têm da nossa casa. Falar em controlo remoto de luzes ou de tomadas elétricas com ligação wi-fi é apenas uma ínfima parte do assunto. Uma evolução que aconteceu naturalmente não só devido ao avanço da tecnologia e à facilidade com que dispomos hoje em dia de soluções de sensorização ou de conectividade, mas também em grande parte alavancada pela consciencialização por parte das pessoas do potencial que essas tecnologias oferecem, suportado também pela alteração das suas preocupações.

No fundo as expectativas e as motivações dos utilizadores transformaram-se por completo. Ao interesse inicial pela sensação de controlo, juntaram-se preocupações de segurança, conforto e, mais recentemente as preocupações da eficiência energética. Em grande verdade, este último, já se assume como um dos maiores impulsionadores na massificação destas tecnologias e na conquista de mais utilizadores. Por exemplo, o mercado de Smart & Connected Heating é já um negócio que movimenta aproximadamente 400 milhões de euros por ano só na Europa, com um crescimento acima dos 20% ao ano, e estima-se que assim continue. Aquilo que foi inicialmente impulsionado pela disrupção de consumo provocado pela pandemia da covid-19, altura em que as pessoas se encontraram subitamente em casa de forma prolongada e se depararam com uma subida substancial dos custos de energia, vê-se agora fortemente reforçado. Com a Europa a viver provavelmente a maior crise energética da nossa geração, esta preocupação tornou-se incontornavelmente no tema central da tecnologia aplicada ao setor residencial. A poupança de energia é um dos assuntos mais falados na atualidade ao ponto de provocar já em alguns países da Europa Central alterações legislativas de promoção de limites ao consumo.

Viver na erupção de uma transformação provoca inevitavelmente reações nos fabricantes de equipamentos de aquecimento e de climatização em geral, que assumem hoje o investimento na climatização inteligente como um veículo imprescindível de vendas - aqui falamos essencialmente em conectividade e em aplicações móveis.

Através de aplicações móveis associadas a equipamentos de controlo na casa, é possível hoje em dia configurar dinamicamente quais as divisões da casa que queremos aquecer e quando. Este método de aquecimento seletivo quando bem gerido pode conduzir a poupanças de mais de 30% no consumo de energia quando comparado com um sistema de aquecimento central uniforme em toda a casa. Isto sem perder qualquer tipo de conforto. Mas há mais exemplos: com outro tipo de sistemas inteligentes podemos tirar partido do excedente de energia produzida nos painéis solares fotovoltaicos de forma útil - privilegiando o aquecimento do reservatório de água para uso sanitário apenas nessas situações, ligando temporariamente o Ar Condicionado ou até carregar um veículo elétrico exclusivamente nessas horas. As oportunidades são várias, e podem ser ainda mais exploradas. O foco principal neste momento é a utilização eficaz da energia que pagamos ou produzimos e com isso reduzir ao máximo os custos com eletricidade ou gás.

Olhando para o futuro, o potencial a explorar diversifica-se. A análise dos dados de produção ou consumo de energia recolhidos terão um papel ainda mais ativo. Os nossos padrões de utilização poderão ser analisados de tal forma que um sistema de controlo da nossa energia residencial poderá perceber se estamos perante uma situação "anormal" e com isso informar ou recomendar ao consumidor uma ação de poupança imediata. Ou ainda ter um sistema de aquecimento automaticamente ajustado com as previsões meteorológicas, evitando aquecer um espaço onde se espera uma subida das temperaturas em breve. Numa perspetiva ainda mais abrangente, poderemos até comparar as configurações dos nossos equipamentos com outros semelhantes localizados em zonas próximas ou de clima semelhante, e com isso perceber se estamos a ser pouco eficientes com as definições dos nossos equipamentos.

Sabemos que a recolha de dados é vista com desconfiança e preocupação pela maioria das pessoas, mas estes são exemplos de formas nobres da sua utilização que permitem contribuir de forma eficaz para a qualidade de vida de todos nós.

Ao longo da última década, a IoT (Internet of things) tornou-se cada vez mais integrada no nosso quotidiano, e nomeadamente nas nossas casas. As smart homes deixaram de ser algo de ficção científica, e são hoje uma realidade que para além de elevar o conforto, conectar e integrar dispositivos inteligentes permitem também aumentar a eficiência e a sustentabilidade das casas, potenciando a utilização que se faz da energia, e assim melhorar o impacto ambiental das nossas habitações. À medida que a adoção das tecnologias de smart homes aumenta e mais inovações ocorrem, mais pessoas vão experimentar e tirar partido dos benefícios associados. Ainda há um longo caminho a percorrer, mas o que parece claro agora é que quanto mais inteligentes e adaptativas forem as casas de hoje, maior capacidade teremos para enfrentar os desafios de amanhã.

Rui Cardoso, Engineering Manager - Mobile Apps at Bosch

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