Opinião: João Almeida Moreira

Só vão sobrar os tristes

Jair Bolsonaro, Presidente do Brasil.  EPA/MARCELO SAYAO
Jair Bolsonaro, Presidente do Brasil. EPA/MARCELO SAYAO

No princípio era o verbo que sustentava Jair Bolsonaro. As suas bizarras opiniões encontravam eco apenas numa meia dúzia de tristes eleitores do Rio de Janeiro pró-ditadura militar, tortura e armas, por um lado, e anti-direitos dos homossexuais e de outras minorias, por outro. E esse nicho chegava-lhe para se eleger, e ir se reelegendo, deputado federal.

Até mais ou menos 2014, além desses tristes eleitores, só os seus colegas deputados e os jornalistas que cobrem a vida parlamentar o conheciam. Os correspondentes estrangeiros, por exemplo, procuravam-no para entrevistas da mesma forma que buscam apresentar um animal exótico ou um fruto tropical ao público dos seus países. Os apresentadores de talk shows também, porque levá-lo ao programa era garantia de incredulidade, logo, de audiência.

De repente, a Operação Lava-Jato começou a dizimar – na maior parte das vezes justamente – a política tradicional. O PT, após 13 anos na presidência, foi atingido na testa. E, com ele, boa parte da esquerda que representava. Seguiu-se o conservador MDB, passando pelo PSDB, o alter ego do PT que, chegou a pensar-se, poderia beneficiar-se eleitoralmente da Lava-Jato, e a plêiade de partidos médios, quase todos corruptos e oportunistas, do Congresso Nacional.

Da terra arrasada sobraram não os melhores mas os menores. Aqueles cuja insignificância os manteve afastados da corrupção grossa – aqueles que se limitavam a desviar os salários dos assessores e outras espertezas saloias.

Um deles, Bolsonaro teve o mérito de se destacar do pelotão ao descobrir três coisas: primeiro, pela experiência da vitória de Trump dos Estados Unidos, a força imensa da desinformação oferecida pelas redes sociais; em segundo, os pontos de contato entre o seu discurso e o das igrejas evangélicas, reacionário um, retrógrado o outro, poderosos os dois; e, em terceiro, o ímpeto liberal do país após anos de governos de esquerda.

Mesmo tendo vivido à sombra do estado toda a vida, converteu-se ao liberalismo da noite para o dia. Católico apostólico romano de nascença, fez-se batizar por um bispo evangélico nas águas do Rio Jordão, em Israel, numa tarde. E de info-excluído passou a rei do Twitter, do Facebook e do Whatsapp num clique.

Cresceu nas sondagens até chegar ao segundo lugar, atrás apenas de Lula da Silva, cujas ambições presidenciais a Lava-Jato se encarregou de cortar na hora H.

Como só Fernando Haddad, o indicado de Lula, pareceu dar-lhe luta, os “mercados” tomaram-no como uma espécie de idiota útil e abraçaram-no. Os cidadãos comuns, cansados do PT e das crises ética e económica que o partido fomentou, deixaram-se levar. E, de repente, o político que anos antes só um nicho de tristes apoiava, tornou-se um fenómeno eleitoral imparável, alimentado ainda pela comoção gerada por uma facada.

Mas com dois meses e meio de governo, a incompetência de Bolsonaro já assustou os “mercados”, que o acham agora muito mais idiota do que útil. O cidadão comum que votou nele engole em seco ou cora de vergonha a cada episódio “Golden Shower” ou outro que o valha. Os políticos, que outrora bajularam Lula e nos últimos meses o bajulam, já se preparam para bajular o próximo que cheire a poder. Os evangélicos, enganados pela promessa de campanha não cumprida de transferir a embaixada em Israel para Jerusalém, rebelam-se. E até os generais, o seu círculo natural e íntimo, se entreolham incrédulos com os desvarios de um mero capitão.

Com o tempo, resta saber quanto, Bolsonaro está destinado a ficar rodeado apenas da meia dúzia de tristes originais.

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