Opinião: Hugo Veiga

Sobre os bebés que falam e os que andam

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Recentemente, fui pai de uma linda menina. Com ela, chega uma panóplia de factos desconhecidos. Um deles é que, a partir de uns 7 meses, os bebés escolhem que skill vão desenvolver primeiro: uns focam em andar, outros, em falar. Não conseguem fazer as duas coisas ao mesmo tempo. É da natureza humana. Aí, lembrei-me como o nosso metiê está repleto de espécies de bebés. Existem os que falam e os que andam.

Não é difícil conhecer os bebés que falam, de uma forma ou de outra eles sempre arrumam um jeito de chegar até nós, estão constantemente lutando pela ficha técnica da nossa vida social. Os bebés que falam são muito peculiares. Eles têm o dom da palavra. De nos entreter. São a cigarra nos cativando com melodias de sereia. Sempre que assisto a uma de suas apresentações, sinto-me mergulhar num mundo de Instagram com bons crops de foto, tratamento na sombra, contraste, temperatura, realce…
Uma saturação. Com esse jeitinho Instagram de ser, fazem-nos lembrar dos seus nomes, do que têm aprontado por aí, de como se alimentam e de como incríveis eles são (e como nossa vida é uma foto noturna, tirada em contra-luz, postada sem uma única hashtag). Infelizmente, na maioria dos casos, são eles que assumem posições de liderança. Porque acima de tudo, nessa vida, é preciso falar bem, “né gentxi”? Eu não vejo problema em que esses bebés consigam ter o sucesso que têm. Quero mais é todos felizes. Felicidade global melhora o trânsito, a vida sexual entre parceiros, estimula até o índice de confiança do consumidor e a economia positivamente.

O problema é que, tal como no mundo animal, onde os bebés que mais crescem são os espertos que choram mais e monopolizam a teta, esses bebés que falam sobrepõem-se aos bebés que andam. Chutam-nos para o anonimato e deixam-nos focados em criar e produzir muito do conteúdo que depois vão chamar de seu. Se os bebés que falam são uma conformidade da natureza, os bebés que andam são um fenómeno. Eles andam de um lado para o outro, pulam obstáculos, batem com a cara no chão, levantam e logo vão experimentar outra coisa.

Eu sou a favor de um mundo que valorize mais os tímidos, os silenciosos, os que manufaturam. De um mundo onde onde, em vez de pimbalhada no top dos charts, encontremos artistas que não querem agradar a todos. Porque esses não falam convenções, pasteurizações.

Enquanto observo mais um post de um bebé que fala, penso, triste, que o tempo perdido na elaboração de discursos para as suas redes sociais, é o tempo que não estão dedicando a aprender a andar. E isso é, em muitos casos, uma perda de talento. Esses bebés são capazes de melhor. Mas isso sou eu a falar. E vejam só o quanto falei. Melhor calar a matraca, dar o pisga e fazer algo útil. Quanto a vocês, andem! E bora fazer coisas fixes. Porque a malta curte, partilha e fala sobre. E é muito melhor deixar para os outros as falas de vossas andanças.

Executive creative director da AKQA São Paulo

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