Solidariedade com Conceição Queiroz, uma jornalista excecional

No passado dia 3 de Maio Conceição Queiroz, jornalista da TVI, foi alvo de insultos racistas no exercício das suas funções. As agressões aconteceram em direto quando fazia uma reportagem no exterior.

Estas agressões ferem, magoam e provocam lesões graves. Não podem ficar impunes como se fosse uma simples falta de educação. Por outro lado estas agressões, quando públicas como foi o caso, não atingem só a pessoa visada mas toda uma comunidade, agravando o crime cometido.

Nesta hora amarga quero manifestar publicamente a minha total solidariedade com Conceição Queiroz e dizer-lhe que, sem a conhecer pessoalmente, admiro o seu trabalho enquanto jornalista e o seu contributo para a reflexão e ação antirracista em Portugal.

Recordo uma excelente conferência que organizou em 2019 e que congregou um leque muito impressivo e diversificado de oradores.

O racismo institucional prevalente na nossa sociedade gera depois o racismo individual que, sabendo-se impune, explode em várias situações da vida ferindo gravemente as pessoas racializadas.

Este racismo individual é fruto de vários fatores estruturantes, ideológicos e materiais, da nossa sociedade, nomeadamente a Escola onde se não ensina a igualdade e se apresenta os Negros como "selvagens" ou "escravos", onde os Ciganos nem são mencionados; da Justiça que se mostra incapaz de condenar quem quer que seja por racismo; da Policia que brutaliza tantas vezes as pessoas racializadas; da persistência da negação do racismo como forma de o não combater e desculpar e da ideologia colonialista que ainda prevalece em extensos setores da academia e da classe política. Mas também do mercado de trabalho que encaminha as pessoas racializadas para profissões específicas ou não lhes permite aceder sequer ao trabalho, como é o caso dos Ciganos.

Sabe-se que estas agressões físicas e/ou psicológicas provocam danos na saúde dos que as sofrem, constituindo na prática uma forma de tortura e de lento assassinato. A acumulação destas agressões traduz-se depois numa menor esperança de vida. De tal forma que o racismo tem vindo a ser considerado uma emergência médica em vários Estados norte-americanos.

Conceição Queiroz é o exemplo de uma carreira feita com grande coragem, verticalidade e competência, tendo enfrentado e superado muitas vezes a discriminação e o racismo. Um caso em que para atingir uma dada posição uma pessoa racializada tem de mostrar uma competência muito maior do que seria normalmente necessário.

Num país em que os jornalistas Negros se contam pelos dedos, em que os pivots televisivos Negros não perfazem sequer os dedos de uma única mão, Conceição Queiroz tem sido um exemplo, um modelo, um símbolo.

Ficam também os meus votos para que os cobardes agressores de Conceição Queiroz sejam levados à Justiça e punidos. Para que não sirvam de exemplo a mais agressões, para que todos nos possamos sentir seguros no nosso país. Para que o país saiba que estas agressões são inadmissíveis, são crimes não desculpáveis.

É tempo de Portugal deixar de fingir que o racismo não existe, de negar que fere diariamente os portugueses racializados, e assumir que é necessário tomar medidas em vários setores para o combater.

* Economista MBA

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