Opinião: Rosália Amorim

Sombras chinesas

(REUTERS/Thomas White)
(REUTERS/Thomas White)

Firmar parcerias entre empresas portuguesas e players locais é uma das melhores formas de vingar em território chinês.

Irá a OPA sobre a EDP ensombrar a visita do presidente chinês a Portugal, no início de dezembro? Há algumas autoridades e personalidades preocupadas com esta possibilidade. Contudo, e sem diminuir a importância deste eventual negócio, julgo que a resposta é não. Não, porque a relação entre os dois países é muito mais do que um único negócio.

Pelo que vi e ouvi na Gala Portugal-China, com uma conferência dedicada ao tema “Relações Portugal-China – Conhecer o passado, preparar o futuro”, esta é uma ligação histórica, com raízes culturais profundas (por exemplo, em Macau), de respeito mútuo e que perspetiva oportunidades. Aliás, só na base da confiança e do respeito é possível estudar, antever e tornar profícuas as relações de futuro, os investimentos e as parcerias. Como afirmou o antigo governador de Macau, Vasco Rocha Vieira, “a China percebeu rapidamente a importância da relação, nomeadamente económica, com Portugal”.

Firmar parcerias entre empresas portuguesas e players locais é uma das melhores formas de vingar em território chinês. A Aptoide, startup portuguesa com escritório na China, deu o seu testemunho: “Fizemos uma parceria local e isso é muito importante. Em 2015, abrimos escritório em Shenzhen, onde se fazem mais de 90% dos telemóveis do mundo, e foi preciso esperar dois anos até que o parceiro chinês confiasse em nós. Hoje, os parceiros chineses dão-nos, todos os meses, dois milhões de clientes novos”, revelou Tiago Costa Alves, vice-presidente da Aptoide para a Ásia e Pacífico.

Valeu a pena ter “paciência de chinês” no caso da Aptoide. Este exemplo mostra a forma como as empresas portuguesas devem saber definir uma estratégia, saber trabalhar, saber esperar e nunca almejar resultados rápidos, logo no trimestre seguinte. Na China, avisaram todos os intervenientes na palestra, os resultados demoram a chegar, mas quando surgem são em grande, à escala do Império do Meio.

Ou, como referiu Carlos Cid Álvares, CEO do BNU em Macau, “ali a palavra crise não existe”.
Para quem julgue que a EDP está a ensombrar esta relação antiga, lembraria um pormenor curioso a propósito da cor da EDP (vermelha): o vermelho é a cor predominante no Oriente, como se vê nos templos, os nós são preferencialmente atados com fios vermelhos e, no Feng Shui, é sinal de prosperidade amarrar três moedas chinesas com um fio vermelho.

Outra feliz coincidência: na simbologia chinesa, o vermelho está associado ao quadrante sul (Zhu Qiao ou o Pássaro Vermelho do Sul), uma região de luz em que os seres entendem-se uns com os outros. Há muitos séculos, os sábios voltavam-se para sul quando tentavam perceber o sentido do universo e os governantes sentavam-se em direção a sul ao conceder as audiências para estar voltados para a luz.

Ora, Portugal está no sul da Europa e é a ponte para o hemisfério sul, designadamente para África e América Latina, mercados em que a China tem interesses e onde Portugal, pelas relações culturais e históricas, pode ser um bom parceiro. Portanto, que haja muita luz e sabedoria neste momento especial da vinda do presidente chinês, e que esta visita de Estado abra as portas a maior entendimento e prosperidade.

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