Somos velhos. E agora?

Todos sabemos que somos o terceiro pais mais envelhecido da europa e o quinto mais velho do mundo e que, a avaliar pelas estatísticas, seremos irremediavelmente um país com ainda mais velhos daqui a umas décadas. Mas, se quisermos perceber quem são e como vivem os nossos idosos, temos de olhar além dos números. Temos de olhar para dentro das nossas próprias vidas, das nossas casas, das nossas famílias. E o que vemos? Pais e avós já velhos, muitos deles com dificuldade em realizar tarefas simples do dia-a-dia. Alguns sem autonomia, sem mobilidade ou, pior ainda, sem qualquer dignidade. Envelhecer é inevitável, mas envelhecer sem qualidade não é.

Promover o envelhecimento saudável é, não só um imperativo social, mas também um investimento com um retorno socioeconómico significativo. Se o aumento da esperança média de vida for acompanhado de medidas para a promoção de uma melhor velhice, o Estado não só poupa - e poupa muito. Conseguirá cortar entre 40 e 60% dos gastos totais da Saúde. E pode fazê-lo com recurso a medidas tão simples e exequíveis como o reforço do número de fisioterapeutas no Serviço Nacional de Saúde. Atualmente, existem mais de 12 mil fisioterapeutas registados em Portugal, 909 nos hospitais do SNS e outros 169 nos centros de saúde. E lá voltamos de novo aos números e, com eles, à dura realidade dos nossos pais e dos nossos avós que, para acederem a cuidados de fisioterapia, são obrigados a passar por duas ou três consultas médicas prévias quando o assunto podia ficar resolvido num ápice, logo à primeira.

Em Portugal, envelhecer bem não é para todos. Não é sequer para quem quer. É para quem pode. Pelo menos enquanto não tivermos uma Saúde eficiente, que utilize os recursos disponíveis para garantir que todos os idosos têm acesso universal a cuidados básicos de qualidade. E não é isso que acontece. Veja-se o caso das urgências hospitalares, permanentemente inundadas de doentes que recorrem a estes serviços porque não encontram resposta noutro lugar. O resultado é evidente: horas de espera intermináveis no atendimento e idas recorrentes ao hospital com as mesmas queixas. Tudo isto é desnecessário.

Estima-se que um quarto dos doentes que chegam às urgências apresente queixas relacionadas com o aparelho musculoesquelético. Ora, se as equipas multidisciplinares desses serviços integrarem os fisioterapeutas, parte do problema fica resolvido. Países como os Estados Unidos, o Canadá ou o Reino Unido implementaram a medida e obtiveram resultados surpreendentes: o desempenho dos serviços melhorou, o tempo de espera dos doentes diminuiu, as visitas repetidas às urgências também e os recursos médicos ficaram mais disponíveis para responder a outras queixas mais urgentes. Na prática ganharam todos: os profissionais de saúde, os utentes e, em última análise, o Estado que, rentabilizando recursos, conseguiu cortar nas despesas e promover a eficiência dos cuidados de saúde.

Se é certo que as trajetórias de envelhecimento nos lançam novos desafios, a realidade dos nossos idosos empurra-nos para a construção urgente de soluções capazes de resolver os problemas dos nossos pais e dos nossos avós. A fisioterapia pode e deve ser parte da resposta de que todos precisamos. Nós, fisioterapeutas, estamos prontos para dar o nosso contributo. De que estamos à espera, agora?

*Candidato a Bastonário da Ordem dos Fisioterapeutas

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