Opinião

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(PEDRO SARMENTO COSTA/LUSA)
(PEDRO SARMENTO COSTA/LUSA)

O plano de recuperação para Portugal, feito do nada, em cima do joelho, por uma única pessoa, arrisca-se a ser tão irrealista como outros planos feitos no passado que não puderam por impossibilidade prática ser concretizados.

Desde logo pretende colocar Portugal como um país na economia do conhecimento. Isto é, entre aqueles que concebem, desenham os sistemas produtivos, as máquinas e as infraestruturas e as formas de distribuição de bens e serviços. Entre aqueles que investigam e produzem conhecimento e tecnologia.

Infelizmente esta ideia significa começar a construir a casa pelo telhado. Portugal não pode concretizar nos próximos 20 anos tal façanha. Por três motivos: falta de massa crítica em termos da instrução da população, por falta de capital e pela nossa estrutura produtiva.

Vejamos alguns números: Portugal é dos países em que a percentagem da sua força de trabalho com educação superior é das mais baixas da União Europeia. Mesmo no grupo etário dos 30 aos 34 anos essa percentagem ronda os 35%, sendo a terceira mais baixa da União, só a Itália e a Roménia conseguem pior. Enquanto na Europa só se fala de alargar a educação terciária (universitária) e alguns países já ultrapassaram a fasquia dos 60% nós estamos a ultrapassar essa meta … na educação secundária! Somos aliás dos países em que o abandono escolar precoce foi e é dos mais elevados. E o foi é importante porque são esses que estão agora em idade ativa e aí se manterão por décadas.

Não será certamente com esta força de trabalho que conseguiremos construir uma economia do conhecimento! Quanto muito poderemos importar os produtos do conhecimento para a nossa produção, mas não seremos nós a criá-los. Mais importante seria ter um plano que em 20 anos nos colocasse acima da média da União em termos de instrução da população ativa.

Outro dado, Portugal é dos países que menos investe em Investigação e esse investimento é maioritariamente feito pelo Estado. O que não tem nada de mal, mas mostra que as empresas portuguesas dele não precisam para sobreviver. De facto o nosso tecido produtivo incorpora tecnologia mas ela é importada e as empresas não têm dimensão para produzir a sua própria investigação. Podemos mudar esta situação em 20 anos? Muito dificilmente. Mais importante seria criar condições para que as empresas absorvessem melhor os trabalhadores portugueses com mais instrução e estes não fossem obrigados a emigrar.

Ainda outro aspeto. As exportações portuguesas são das que na União Europeia maior componente de importações têm. Isto é importamos produtos semiacabados, adicionamos mão-de-obra barata e reexportamos. O valor acrescentado é pequeno porque não adicionamos tecnologia, apenas trabalho pago muito abaixo da média europeia. Acresce que muitas destas exportações não dependem de empresas portuguesas, são feitas por empresas multinacionais que escolhem Portugal não pela excelência da investigação mas pelo baixo preço do trabalho. E as empresas portuguesas que giram à volta destas grandes multinacionais (Volkswagen, Renault, Siemens, Boch, etc.) são igualmente fornecedoras de mão-obra barata usando tecnologias indicadas e obrigatoriamente certificadas pelos compradores.

Mas já temos algumas empresas de ponta dizem. É verdade, mas são pequenas e muito poucas. Exceções que confirmam a regra. Várias delas já têm algumas décadas e o facto de continuarem pequenas e não terem sido exemplo, nem fator de arrastamento para muitas outras devia-nos fazer pensar.

Como alterar este perfil económico de total subordinação ao estrangeiro e de inserção na economia europeia via mão-de-obra barata? Não se aborda tal tema na visão estratégica.

Começar a casa pelo telhado leva, inevitavelmente, a um desastre e a um gasto de energia, capitais e oportunidades inúteis que só servem para nos

atrasar. Como temos feito nos últimos 20 anos, em que quase todos os países do Leste Europeu nos ultrapassaram.

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