Spielberg, Netflix e a cambalhota de Hollywood

Se perguntarem a alguém qual é o filme mais conhecido de Steven Spielberg, dificilmente obterão uma resposta unívoca. O realizador de 74 anos é talvez o mais prolífico e bem-sucedido realizador das últimas décadas em Hollywood, tendo no currículo clássicos tão díspares como "Gremlins", "Parque Jurássico", "A Lista de Schindler", "E.T.", "Relatório Minoritário" ou "A Cor Púrpura", além de toda a saga Indiana Jones - e um batalhão de outros títulos.

Por isso, Spielberg apanhou Hollywood de surpresa quando ontem foi anunciado que a sua companhia de produção, Amblin Partners, assinou um acordo multi-anual com a Netflix para produzir filmes exclusivos para o serviço de streaming.

Que cambalhota tremenda. Spielberg nunca foi grande fã da Netflix e da sua investida no cinema, e consta que chegou a pedir à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas para não considerar filmes de streaming elegíveis para os Óscares. Agora, vai produzir pelo menos dois filmes por ano para a plataforma que literalmente mudou o panorama da televisão em todo o mundo.

Este é um sinal relevante de que há mudanças sísmicas a acontecerem em Hollywood. A pandemia foi uma desgraça para o cinema e toda a indústria que circunda esta arte. Em Los Angeles, a travagem súbita das produções foi devastadora: houve uma altura em que metade da população da cidade estava desempregada. Muitos artistas foram-se embora, incluindo portugueses que até então estavam a conseguir desbravar caminho. Alguns voltarão, mas o momento está perdido e entretanto outros projectos se assomaram.

Mesmo os filmes que já estavam na fase de pós-produção fizeram aterragens forçadas. Os grandes estúdios tiveram de adiar lançamentos ou aceitar lançar potenciais blockbusters em plataformas de streaming como a Netflix, HBO Max e Disney+.

E se antes da pandemia floresceram histórias diversas e abriu-se espaço para realizadores menos conhecidos, a crise que se abateu sobre a indústria quando as salas de cinema foram encerradas e as filmagens suspensas tornou os estúdios mais conservadores. Olhem para os cartazes: super-heróis, sequelas, prequelas e histórias de origem. Os filmes mais pessoais e idiossincráticos foram relegados para as franjas. Nem é que os consumidores não os queiram ver, porque querem. A sua rentabilização é que está mais complicada.

Em cerca de ano e meio de pandemia, os hábitos dos consumidores mudaram drasticamente. Saímos de um ano de 2019 com recorde de receitas nas bilheteiras para um 2020 catastrófico e um 2021 que segue aos soluços. Muitos farão uma pergunta válida: merece a pena ir ver "Cruella" ao cinema, se é possível aceder ao novo filme da Disney em casa? E o próximo grande título da Marvel, "Viúva Negra", justifica o investimento em bilhetes e pipocas?

Os amantes da sétima arte na sua forma plena dirão que sim. Há algo de insubstituível na experiência colectiva de ver um filme numa sala de cinema, com um ecrã gigante, som avassalador e a companhia de estranhos que comungam daquela viagem pela suspensão da descrença. Mas a conveniência do streaming tem o seu atrativo, e supõe-se que será impossível voltar a pôr esse génio de volta na lâmpada quando a pandemia acabar.

A grande questão é quem seremos, como sociedade, nesse momento. Vamos em busca de uns novos loucos anos vinte, sedentos de aventuras e entretenimento? Ou vamos manter-nos em silos sociais, que apenas se cruzam em determinados momentos?

Steven Spielberg, uma lenda de Hollywood que sempre defendeu a sétima arte na sua experiência plena, possivelmente tem uma ideia do impulso que será mais forte.

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