Opinião

Superar a crise: ainda mais digital, mais comercial

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O atual contexto derivado do aparecimento e difusão global da covid-19 precipitou a humanidade para a realidade de uma crise generalizada com uma rapidez, abrangência e dimensão sem precedentes. De um momento para o outro, foi preciso reagir perante o imprevisto que se materializava e desenrolava, mostrando desequilíbrios abruptos e antagónicos como o desaparecimento forçado e desencontrado da oferta e da procura (de que é exemplo o turismo), o surgimento de torrentes de novas formas de procura sem capacidade de resposta ou com fortes restrições do lado da oferta (de que é exemplo a saúde), ou o rompimento e desnorte das cadeias de valor. Num instante, perderam-se anos de crescimento e aumento de bem-estar económico generalizado, com ondas vertiginosas de desemprego que passam fronteiras e sectores, exigindo, por consequência, novas e adequadas respostas para aquilo a que começámos a chamar de novo normal, mesmo antes de entender toda a sua expressão.

Manter a economia viva e a funcionar é agora entendido como fundamental, uma vez que o impacte negativo da Covid-19 foi – e é – exponenciado com a sua paragem. É atualmente aceite que novas crises de dimensão global poderão surgir e que as atuais respostas terão de ter objetivos muito mais amplos que a mera recuperação do crescimento. As soluções de hoje devem estar dirigidas a objetivos de preparação e obtenção de sucesso, não só na superação da atual crise, mas também em conseguir agentes e empresas mais fortes e capazes de suportar uma sociedade mais resiliente e preparada para enfrentar crises de dimensões planetárias e catastróficas.

A resposta imediata está nas novas empresas digitais, nas empresas que se criaram sobre os princípios da Indústria 4.0 ou aquelas mais raras que, estando já no mercado, conseguiram introduzi-los ativamente nos seus processos produtivos e de negócio, incorporando a inovação de um modo constante, com tecnologias e métodos disruptivos, com a capacidade de levar as economias dos países a superar crises e, desde já, aquela em que nos encontramos. Esta é uma aposta que deve mobilizar todos os agentes do mercado, considerando como particularmente crítico aqueles que estão na génese da criação destas empresas e que podem determinar o seu crescimento e afirmação no mercado, incluindo business angels, capitais de risco, grandes empresas, incubadoras, aceleradoras, universidades e outros centros de desenvolvimento de conhecimento e saber.

Para além das questões de âmbito puramente tecnológico, há que salientar, como condição diferenciadora, o facto de serem empresas assentes em plataformas digitais, que relacionam os diversos agentes das cadeias e redes de valor e promovem ativamente as suas interações. Estas plataformas permitem também a aquisição de conhecimento e estabelecimento de modelos de negócio muito ágeis, que as empresas podem melhorar continuamente, obtendo ganhos marginais contínuos e, por isso, o aumento recorrente e sustentado do valor criado. A introdução de mecanismos de inteligência artificial e a sua proliferação e comunicação em rede levam à criação e captação de conhecimento que, quando aplicados a processos auto-ajustado e regulados, exploram antecipada e permanentemente a assimilação de ganhos adicionais. Finalmente, a desmaterialização dos processos que lhes está inerente proporciona um grau de robustez e resiliência que lhes permite resistir às eventuais ruturas derivadas de uma crise.

Finalmente, gostaria de salientar que este contexto evidenciou ainda a importância da função comercial, a sua centralidade para a obtenção de crescimento e, por isso, de sucesso. A superação da crise e a criação, manutenção e desenvolvimento sustentado de bem-estar estão intimamente ligados ao crescimento das economias e, consequentemente, das empresas. Esse desenvolvimento só é possível se os bens e serviços criados gerarem trocas recorrentes que materializem a criação de valor. Sem uma função e processos comerciais adequados, que originem oportunidades e as convertam em negócios efetivos, não é possível sustentar processos de inovação, criação de novos produtos, serviços e soluções, bem como de geração contínua de emprego e riqueza. O sucesso e robustez das empresas só será possível se, ao domínio tecnológico, for acrescentado o desenvolvimento de competências comerciais, assentes em processos digitais e humanos, que permitam a criação e reforço de imagem reputacional, a geração e divulgação de conteúdos diferenciados e a efetivação de relações de negócio. A colocação da função comercial no centro das discussões, planos e objetivos estratégicos é um aspeto fundamental a considerar e que não pode ser ignorado mesmo, e ainda mais, pelas empresas de maior componente tecnológica.

A realidade é digital, implicando processos remotos, de distanciamento negocial em mercados saturados, onde é cada vez mais difícil as empresas se destacarem. Trazer, finalmente, a função comercial para o centro das discussões de negócio, encarando o crescimento como um processo contínuo, será certamente o caminho para a superação. A resposta é – e terá de ser – ainda mais digital e, certamente, mais comercial.

Ana Paula Reis, partner da Bynd Venture Capital

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