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Google bullying acusação escritório lego

A desresponsabilização da Google é sintoma de um problema que grassa em Silicon Valley e se deve à pouca regulação a que as empresas são sujeitas

Se fosse preciso reduzir esta história a um emoji, seria aquele em que o boneco tem os olhos fechados e a mão a tapar metade da cara, num misto de desaprovação e vergonha alheia. O cemitério de boas ideias em que o Google+ se tornou vai finalmente fechar portas, depois da machadada final de mais um escândalo de violação de dados. Estes episódios tornaram-se tão frequentes que, quando descobriu que as informações privadas de meio milhão de utilizadores tinham ficado à mercê de terceiros durante três anos, a Google decidiu não dizer nada.

Má conduta, péssima premissa. Uma atitude enraizada na noção de que a maioria dos utilizadores não liga à confidencialidade dos seus dados pessoais como deveria. Nem o vendaval que assolou o Facebook por causa dos abusos da Cambridge Analytica levaram a Google a ser transparente. E a entrada em vigor do Regulamento Geral de Protecção de Dados da Comissão Europeia idem. É um regabofe que tem de acabar, esta mania das gigantes tecnológicas de acharem que não devem nada a quem lhes alimenta os negócios.

Pode-se argumentar que o Google+ já estava de patas ao ar há anos e que o caso não é tão grave como o do Facebook, visto que a rede (mais ou menos social) da Google nunca teve o mesmo impacto que a rival. Eu discordo: numa tentativa de fazer escalar a plataforma mais rapidamente que o que estava a acontecer de forma orgânica, a empresa começou a forçar os seus utilizadores a criarem um perfil Google+ com todas as contas novas noutros serviços, como canais de YouTube. Muita gente nem sequer se lembra que tem os seus dados registados, e a confusão histórica dos termos de utilização, bem como a ubiquidade dos serviços Google, tornam qualquer episódio de informação pessoal vazada muito preocupante.

Esse é, precisamente, um dos motivos que tornam tão difícil escapar à rede de pesca da Google. Nenhuma outra empresa tem tantas informações sobre nós, mesmo aqueles que não usam smartphones Android. Se não é pelo Gmail, é pelo motor de busca; se não é pelos gostos no YouTube, é pelos destinos no Google Maps. Se não é pelas traduções, é pelos cookies no Chrome. Provavelmente tudo isto e mais uns trocos.

A descoberta desta falha é duplamente grave. Não foi só mais um incidente em que uma empresa não protegeu o acesso a dados pessoais como deveria; descobriu e optou por não informar os seus utilizadores para evitar o escrutínio regulatório. A desresponsabilização da Google neste caso é sintoma de um problema que grassa em Silicon Valley e se deve à pouca ou nenhuma regulação a que as empresas foram sujeitas até agora.

Aliás, nem de propósito, amanhã será discutido no congresso americano o impacto do RGPD e o exemplo da Califórnia, que acaba de aprovar nova legislação de protecção dos consumidores. O governo do Estado pretende ter mais intervenção na governação das empresas, e se os Democratas retomarem o controlo do Congresso em novembro, é garantido que serão aprovadas reformas para pôr freio a algumas das práticas mais escandalosas das tecnológicas no que respeita a estes temas.

Mesmo que as Googles e Facebooks gritem que tais imposições vão atrasar a inovação, é hora de perguntar até que ponto queremos novos serviços tão rapidamente se isso significar que a nossa informação é posta em causa a toda a hora. Se nós somos o produto, como jocosamente se diz na era dos serviços online gratuitos, então que os dados que fornecemos de boa fé sejam invioláveis. Já não há desculpas para erros de programação nem ingenuidades crónicas.

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