Tarde demais?

Todos sabemos que "o fim do mundo" é um eufemismo para extinção da espécie humana, conquanto os ambientalistas radicais pareçam estar, mesmo, mais preocupados com o planeta ou os animais outros que não o Homem.

As alterações climáticas, a longo prazo, e a multiplicação de pandemias, a prazos mais curtos, são ameaças reais para a espécie humana. O Papa Francisco e António Guterres têm sido duas das personalidades, com audiência mundial, que têm alertado, e insistido, para a necessidade de uma coordenação global no combate a estes problemas. Os seus apelos podem parecer utópicos, catastrofistas, quando, na realidade, são sinal de clarividência. Estarão, talvez, apenas à frente do seu tempo. A covid-19 mostrou, se preciso fosse, que numa sociedade globalizada, mesmo problemas locais se transformam em globais. A incapacidade para compreender que, sem uma resposta articulada a nível mundial, a probabilidade de controlar esta pandemia é reduzida, conjugada com as dificuldades em montar essa eventual resposta, não são bom augúrio para o futuro, talvez mais imediato do que se pensa: as sucessivas variantes, cada vez mais agressivas, deveriam ser um alerta.

Um futuro também comprometido pelo impacto inexorável, crescente e assimétrico das alterações climáticas, antecipado pelas gerações mais jovens e patente, de forma brutal, nas respostas a um inquérito realizado a nível europeu: entendem-nas como a herança que lhes deixamos, à qual reagem com desesperança. Como não anteveem melhorias, não querem ter filhos e não acreditam que os políticos sejam capazes de encontrar alternativa. Um quadro propício ao aparecimento de soluções salvíficas, antidemocráticas.

Os apelos do Papa Francisco, para um reinventar da Sociedade das Nações, e de António Guterres, para o aprofundamento de um sistema de governança global, por mais lúcidos que sejam, continuam a soar como um pregão no deserto. Se nada for feito, se a sociedade não se mobilizar, se não se conseguir envolver os mais jovens, então não será, apenas, um pouco tarde. Será, mesmo, tarde demais.

Economista e professor universitário

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