Tecno-nacionalismo ou o fim da globalização

Um mês depois lançar o que já é um bem-sucedido iPhone 13, a Apple está a ver-se na contingência de reduzir a produção do smartphone por causa da escassez de chips. Não são os únicos. Há uma disrupção séria em múltiplas cadeias de fornecimento, o que ameaça a recuperação de várias indústrias e dos mercados, em geral, no rescaldo da pandemia de covid-19. Mas esta questão é maior, muito maior que a turbulência gerada pela emergência sanitária. Estamos num ponto crítico de inflexão em relação às cadeias logísticas globais - e às próprias bases da globalização, que regeram as políticas económicas e sociais das últimas décadas.

Uma "tempestade perfeita", disse o investigador Alex Capri, que se prepara para publicar o livro "Techno-Nationalism: How it's reshaping trade, geopolitics, and society", num evento virtual da Hinrich Foundation.

O argumento é de que estamos a viver uma convergência de eventos sísmicos que resultará "na aceleração da fragmentação das cadeias de valor a nível global e aceleração da localização", com a construção de uma espécie de vedações geográficas ao redor de ecossistemas de negócio.

Colocado de forma simples, o regabofe de offshoring para a China acabou. Não só terminou aquilo que se viveu nas últimas duas a três décadas, em que o Ocidente se acostumou a deslocalizar toda a sua produção para as fábricas chinesas, como haverá uma clara inversão de marcha.

Alex Capri identifica três factores-chave que estão a provocar esta mudança drástica. O primeiro é o agudizar da rivalidade sistémica entre a China e o Ocidente - mais que apenas uma rixa política entre Pequim e Washington, D.C. O segundo é o rescaldo da pandemia: quando a máquina produtiva da China travou a fundo por causa da covid-19, o mundo apercebeu-se repentinamente de que dependia demasiado dela. As cadeias de fornecimento de fonte única ficaram gravemente expostas e percebemos que há enorme vulnerabilidade num grande número de cadeias logísticas estratégicas. Obviamente, é impossível esquecer isto. Uma boa parte das empresas - e muitos países - estão a repensar as suas cadeias de valor.

A terceira componente é a crise climática, que nos está a fazer questionar porque é que estas cadeias logísticas estão tão dispersas e por isso têm pegadas de carbono tão gigantes. "Estão a contribuir para o aquecimento global", frisou Alex Capri. "Temos agora incentivo para localizar e trazer as coisas para os mercados locais, com nova tecnologia. Sabemos que temos de o fazer por causa dos objectivos de redução de emissões de carbono que temos até 2050."

A confluência destes acontecimentos terá um impacto decisivo na economia mundial e na geopolítica. Os países do G7 estão a trabalhar para que as cadeias logísticas regressem aos mecanismos que tinham antes de serem todas deslocalizadas para a China. Alex Capri prevê que isto levará anos a acontecer, talvez uma década, mas é irreversível. A capacidade fabril, a manufactura, vão regressar aos mercados locais.

Temos de pensar também no contexto da transferência internacional de dados e a privacidade. Os vários blocos têm abordagens diferentes; de que forma isso vai reflectir-se na forma como as empresas operam? A Tesla, por exemplo, está a construir centros de dados dentro da China porque todos os dados gerados nos seus sistemas têm de ficar geograficamente dentro do país. É uma tendência em crescimento e, mais uma vez, contrária à expansão multinacionalista e globalizada das últimas décadas.

E o impacto será transversal. Capri acredita que haverá uma "dissociação estratégica" entre o Ocidente e a China a todos os níveis, incluindo no fluxo de estudantes internacionais e investigadores universitários, nos mercados financeiros. "A primazia da geopolítica sobre o mercado é clara", afirmou Capri. Há um regresso claro ao tecno-nacionalismo - que é, de resto, um fenómeno secular, talvez até a normalidade. O sistema que temos vivido, esta globalização repentina em relação aos milénios que estão para trás, é que foi uma anomalia.

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