Tecnologias emergentes: tendências de um futuro em hiperconectividade

Os últimos três anos foram marcados pelo passo acelerado da consolidação da inovação tecnológica - do Big Data à Internet of Things (IoT), sem esquecer o amplo chavão do Next Generation Computing e os últimos desenvolvimentos em cibersegurança -, acompanhada de uma tentativa comprometida de adaptação de uma parte importante do tecido empresarial.

Se é verdade que os benefícios das tecnologias emergentes são claros - tornando-se em alguns casos verdadeiros imperativos de competitividade do negócio -, a tipologia de riscos associada à sua utilização continua de certa forma por esclarecer, tornando difícil uma avaliação criteriosa dos impactos negativos que lhes podem estar associadas. No caso dos setores de atividade nos quais a utilização de tecnologias mais disruptivas se encontra mais acelerada, como são exemplos os serviços financeiros, pharma e logística, o risco tecnológico pode traduzir-se, paradoxalmente, (1) na incapacidade de adaptação a um ambiente de hiperconectividade (a ambos montante e jusante da cadeia de distribuição) ditando o afastamento dos laggers do pelotão da concorrência, ou (2) colocar em situação de risco incremental os trendsetters, ávidos pela inovação e menos sensíveis aos seus efeitos adversos.

Ao nível da governação corporativa, a definição de uma estratégia tecnológica alinhada com os objetivos de negócio, baseada nas melhores possibilidades técnicas do nosso tempo, mas ainda assim consciente e calculista em relação aos riscos e oportunidades de cada projeto, tornou-se essencial ao sucesso das empreitadas empresariais. Mesmo fora das grandes e muito grandes empresas, a elevação dos responsáveis tecnológicos (CIO, CISO, CTO conforme a dimensão, atividade e maturidade das organizações) ao Board e similares, reflete e favorece o desenvolvimento de uma estratégia tecnológica mais cuidada e eficiente e mostra resultados na aplicação criteriosa dos investimentos - entre outros, a maior fluência de conceitos como o return on investment (ROI) e o total cost of ownership (TCO) - aplicados em tecnologia, traz maior tangibilidade às hipóteses de sucesso e mitiga o aparecimento da famigerada technical debt.

O futuro da adoção e utilização generalizada das chamadas tecnologias emergentes dependerá de várias ordens de fatores, endógenos e exógenos à vida corporativa, e agrupáveis, pelo menos, nas seguintes rubricas:

-- Geopolítica: os interesses estratégicos soberanos, a capacidade de interlocução entre estados e a liberdade económica nos principais atores afetarão a concretização da indústria 4.0 (incluindo Internet of Robotic Things (IoRT)), sem esquecer a afetação na distribuição de matérias primas críticas, nomeadamente semicondutores e componentes de baterias;

-- Económica: o ambiente económico global, com a alteração do perfil de consumo sobretudo na Europa, Américas, Sudeste Asiático e Oceânia, onde fruto do cenário pandémico, a incerteza quanto ao crescimento e a ameaça da inflação crescente manter-se-ão fatores a observar;

-- Ética: à medida que os late Millennials e early Zoomers povoam o mercado de trabalho e se aproximam das lideranças, é de esperar o agudizar da alteração da tábua de valores vigente, focada nos data ethics e na transparência, na valorização da sustentabilidade, ecologia e democratização do acesso à informação. São questões caras à tecnologia, porquanto respondem a parte dos problemas criados pelo próprio progresso tecnológico;

-- Jurídica: um pouco por todo o mundo o desenvolvimentos de um quadro regulamentar cada vez mais denso, e eventualmente menos holístico, gerará novas tensões na tentativa de estender a rule of law aos algoritmos.

Face a estes fatores de incerteza, as previsões tecnológicas baseadas nos principais casos de sucesso e investimento anunciados para o que resta de 2021 e o vizinho 2022 incluem:

-- Em aceleração: as metodologias Agile e o desenvolvimento do machine learning, ainda que o ambiente empobrecido das bases de dados se mantenha o principal fator de detrimento do avanço dos modelos. A sofisticação destes modelos de inteligência artificial requerendo a exposição a menores volumes de dados, torná-los-á mais agressivos, necessariamente menos custosos, e por isso mais disseminados. A utilização destes expediente tecnológicos segue a linha da incerteza quanto aos riscos em que o negócio pode incorrer, sem ser possível grandes afirmações sobre o efeito reputacional do seu uso indevido, podendo as consequências variar entre efeitos nos consumidores e clientes até à dificuldade na atração e retenção de talento. Em aceleração mantêm-se também as incontornáveis ferramentas low code e no code, num ambiente de maior literacia digital e com crescente número de nativos digitais a operarem as ferramentas.

-- Em crescimento: os domínios relacionados com a cibersegurança, em especial nas componentes security by design e trusted architcture, seja ao nível das infraestruturas seja ao nível das aplicações, mantêm-se na crista das tendências tecnológicas justificando o investimento já aplicado em linhas de defesa, mas também na dimensão da resiliência, sobretudo fora dos setores tradicionais B2C onde a privacidade foi, na década passada, o grande mote para o investimento. O impacto operacional dos incidentes de segurança é hoje inegável e transversal a setores e modelos de negócio. A necessidade de procurar proteções financeiras robustas é premente apesar do ambiente adverso que o mercado segurador de riscos cibernéticos enfrenta.

-- Em experimentação: é previsível também o despontar de uma maior maturidade face a novas utilizações de distributed ledger, fora do hype das criptomoeadas, com aplicação como as que se têm assistido nos sistemas de compensação e liquidação em serviços financeiros e nos promissores non-fungible tokens (NFT"s). Em experimentação tímida para uso corporativo mantêm-se ainda os drones e UAV's em setores como Mining, Agricultura e Seguros, reflexo do Espaço como ambiente ainda pouco seguro ao investimento tecnológico mais consistente. O rollout massivo do 5G é o enabler em falta para o despontar das soluções de hiperconectividade, mas que deverá manter-se incipiente ao longo do próximo ano, à medida que as primeiras infraestruturas comerciais se tornam operacionais e as fases de testes são superadas.

Manuel Coelho Dias, Senior Consultant de Marsh Advisory da Marsh Portugal

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de