Temer e Caça Rato

Num país com tantos e tão bons cartunistas e chargistas espalhados pelas páginas dos principais jornais, a pequena notícia em O Estado de S. Paulo parecia uma piada. Mas não era.

O governo prepara uma comunicação nas redes sociais ao longo dos próximos dias onde vai comparar Tite, o selecionador brasileiro de futebol, a Michel Temer, o presidente da República do Brasil.

Na campanha publicitária, Dilma Rousseff, a antecessora do atual chefe de estado derrubada por força de um impeachment em Setembro de 2016, vai ser equiparada a Luiz Felipe Scolari, um dos anteriores treinadores dos canarinhos. E o seu interrompido legado à traumática derrota por 7-1 da seleção brasileira frente à Alemanha em Belo Horizonte no Mundial de 2014.

O sete, talvez o número mais mítico da antiguidade clássica, da mitologia e da religião, será transformado em supostas sete mil obras paradas que Temer herdou de Dilma.

Como jamais os canarinhos haviam perdido por tanto, muito menos em casa e ainda por cima num jogo decisivo, comparar o consulado da ex-presidente, desastrado na economia e inábil na política, ao 7-1 parece excessivo, porque houve, infelizmente, gestões piores na história brasileira.

Já Felipão e Dilma, têm, de facto, em comum o Rio Grande do Sul, onde ele nasceu e onde ela fez carreira, além de alguns traços de personalidade – facilidade para ferver em pouca água, tendência ao autoritarismo e inegável resiliência.

Agora, juntar Tite e Temer na mesma campanha só poderia mesmo sair da mente de um cartunista ou chargista – ou, no caso, de um marqueteiro desesperado.

Faz lembrar as comparações do folclórico Flávio Caça-Rato, atacante do obscuro América do Recife que de vez em quando mede forças com Cristiano Ronaldo – por causa das iniciais de Caça-Rato e de jogar com o mesmo número do astro do Real Madrid auto-denomina-se CR7 e auto-proclama-se ainda melhor jogador.

Vejamos os factos: o selecionador Tite recebeu (em rigor, de Dunga e não de Scolari) o Brasil em 6º lugar no apuramento sul-americano para o Mundial de 2014, ou seja, fora da zona de classificação e levou-o, à custa de meia dúzia de vitórias consecutivas, ao topo do grupo. O Brasil foi, por isso, o primeiro a assegurar passaporte para a Rússia, praticando um futebol sólido e atraente em doses iguais.

O sucesso do técnico de 57 anos foi de tal ordem que em Março de 2016 o Instituto Paraná Pesquisas, meio a sério, meio a brincar, incluiu o seu nome entre os presidenciáveis. E Tite obteve 15% dos votos dos quase três mil inquiridos, atrás apenas de Lula da Silva e à frente do então ainda não defunto político Aécio Neves.

Doze por cento dos brasileiros, no mês passado, disseram ao mesmo instituto que estavam dispostos a abdicar de Tite na seleção para apoiá-lo caso se decidisse por uma carreira política.

Quatro vezes mais do que os 3% que aprovam a gestão de Temer, que ainda não recuperou a economia, como prometera na altura do derrube da sua até então aliada, e tem contribuído para um retrocesso civilizacional do país jamais visto em períodos de democracia.

A comparação que serve à propaganda do governo que aí vem tem tudo para, no final das contas, se tornar mesmo uma piada tão boa como as piadas do Caça-Rato.

PS: já depois de escrito este texto, os advogados de Luiz Felipe Scolari ameaçaram com processo a Michel Temer caso a campanha o denigra.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG