crónicas na corda bamba

Ter “igual aos outros”

catarina beato

Quando era miúda, teria 13 ou 14 anos, pedi aos meus pais uns ténis "como os das minhas amigas".

Nota prévia: esta não é uma crónica conclusiva, antes pelo contrário. Isto é um conjunto de dúvidas de uma mãe de três filhos.

Poderia dizer que é um sinal dos tempos mas estaria a mentir porque passei pelo mesmo. Quando era miúda, teria 13 ou 14 anos, pedi aos meus pais uns ténis “como os das minhas amigas”, expliquei o formato, a cor e os outros pormenores que achei relevantes.

No dia seguinte, ou não fosse o sentido de vida do meu pai fazer-me todas a vontades possíveis, lá estavam em casa uns ténis como tinha descrito.

Na verdade eram uns ténis quase como eu tinha pedido, eram uma imitação da marca que as minhas amigas usavam. Agradeci, enchi o meu pai de beijos e saí com eles calçados.

As minhas amigas que usavam os ténis de marca gozaram comigo. Eu não me consigo lembrar se voltei a levá-los para a escola mas sei que os usei até não me caberem.

Meses depois todas as minhas amigas usavam as mesmas calças de ganga. Nessa altura já tinha aprendido que a marca era relevante e também tinha noção que as calças eram muito caras, demasiado caras.

Poupei a minha mesada até ter dinheiro para comprar umas. Algures neste processo, por aprendizagem, feitio ou exemplo, deixar de ligar a isso das marcas.

Perguntava uma mãe no outro dia: “Devo dar telemóvel ao meu filho? Todos têm.” Perante esta questão, agora como mãe, há um lado a quem apetece dar aos meus filhos aquilo que eles pedem (se puder pagar, obviamente) porque “os outros têm”, porque entendo a necessidade de integração, porque percebo essa vontade de ter “igual aos outros”.

Por outro lado, o mais racional e ponderado, sei que contrariar a necessidade de ter “igual aos outros” é uma parte demasiado importante nesta missão de educar, sei que enrijece o caráter e forma os valores. Sei também que, se for realmente importante, a ideia de poupar para algo que queremos muito é importante.

E assim, neste exercício de escrita, respondi à minha questão: não, não é preciso ter porque os outros têm. Pode custar mas o melhor é não ser “igual aos outros”.

Escritora e autora do blog Dias de Uma Princesa.

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