Opinião

Texas, onde o mundo fervilha

A série "Westworld" construiu uma réplica do seu mundo artificial em Austin para o South by Southwest 2018/Foto: HBO
A série "Westworld" construiu uma réplica do seu mundo artificial em Austin para o South by Southwest 2018/Foto: HBO

O South by Southwest é um evento tão intenso numa cidade tão vibrante que facilmente se percebe porque é que tanta gente se apaixona por Austin

“Bem vindos ao South by Southwest. Desfrutem da vossa estadia em Austin. Por favor, não se mudem para cá.” Quem vive na capital do Texas, a estranha cidade de Austin, tem este ritual anual de dizer às dezenas de milhares de pessoas que vêm ao festival SXSW para não terem ideias. “Austin está cheia”, argumentam. O congestionamento que parece piorar a cada dia, as rendas de casa que não páram de subir e as obras que surgem como cogumelos por todo o lado refletem a atratividade da cidade mais liberal e artística do Texas.

Todos os dias se mudam para Austin cerca de 200 pessoas, em busca das qualidades que não raras vezes classificam a cidade no top 5 de melhor para viver nos Estados Unidos. É aqui que, durante 10 dias, decorre o South by Southwest – um festival que tem dentro vários mini-festivais e conferências, da tecnologia à música e ao cinema. As marcas tomam conta de bares e restaurantes, transformando-os em anúncios gigantes onde há comida gratuita, brindes e activações criativas. Os hotéis abrem as salas de conferências a centenas de palestras e workshops em simultâneo. Há festas todas as noites. Há filmes a estrear e sonhos a concretizar-se. É uma espécie de celebração caótica de tudo aquilo que nos apaixona e pressiona, do que marca as nossas vidas e do que determina o nosso futuro.

Navegar o South by Southwest é difícil e exasperante porque há filas para todos os eventos e pouco está garantido. Imaginem um misto entre Expo 98 e Disneyland Paris: enquanto os pés incham na fila para um evento, perde-se outro igualmente interessante mesmo ali ao lado. As escolhas são difíceis: Arnold Schwarzenegger a falar de política ou Melinda Gates a falar do clube dos rapazes em Silicon Valley? A estreia de um filme de terror genial ou o documentário assustador sobre a Alt-Right? O nível de FOMO (fear of missing out) é elevado e o efeito de multidão também. Se está toda a gente a alinhar para o Darren Aronofsky duas horas antes da apresentação, é porque isto é que vai ser bom. Se há uma espera de meia hora para entrar na casa da Bumble, é porque deve ser melhor que a do Google Assistant. É capaz de ser o festival que mais exerce tortura sobre os participantes pela quantidade de eventos de qualidade entre os quais obriga a escolher.

Depois há as surpresas estonteantes. No painel da fenomenal série “Westworld” da HBO, os criadores encerraram a conversa trazendo ao palco nada menos que Elon Musk, CEO da Tesla e da SpaceX, para falar da colonização de Marte que é o grande projeto da sua vida – e talvez da de todos nós. “Está na altura de irmos em frente e expandirmos o alcance e a escala da consciência humana”, disse, perante uma audiência em delírio. “Faz-me sentir feliz por estar vivo.”

A reação da audiência foi tão espampanante que o South by Southwest conseguiu convencer Musk a encher um pavilhão de concertos no dia seguinte para uma sessão improvisada de perguntas e respostas. Ouvi-lo falar é quase tocar no tecido de que é feito o futuro. São raras as vezes em que alguém tem uma visão tão forte e determinada que consegue mexer a agulha e mudar o curso da história; Musk é uma dessas pessoas.

É por causa de oportunidades como esta que ir a Austin para o SXSW se torna um jogo de vitória garantida, apesar do stress, das desilusões quando os voluntários dizem que não entra mais ninguém, dos almoços caríssimos em roulotes suspeitas e dos pés feitos num harmónio ao final do dia. É um evento tão intenso numa cidade tão vibrante que facilmente se percebe porque é que tanta gente se apaixona por Austin. Não tenho tanta certeza sobre a decisão de se mudarem para lá por causa disso, porque há certos lugares que são mágicos porque não são os nossos, porque não os ocupamos todos os dias. Mas durante dez dias, não há melhor lugar que o festival que os locais chamam carinhosamente “South By.”

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