Opinião: Carlos Brito

The Day After

Fotografia: Sam Yeh/AFP
Fotografia: Sam Yeh/AFP

As empresas devem antecipar possíveis situações – ou cenários – e desenvolver planos de contingência para cada um deles

Já deu para perceber que vivemos tempos de guerra. Não é uma guerra convencional, mas não deixa de o ser: defendemos uma causa (a saúde pública) e temos um inimigo (a Covid-19) que, se nada fosse feito, só iria abrandar a sua fúria quando a imunidade de grupo fosse atingida após 70 a 80% da população ter sido infetada.

Para evitar que seja o “inimigo” a ganhar, a estratégia que tem vindo a ser adotada pela maioria dos países traduz-se na compra de tempo através do confinamento obrigatório. Espera-se, com isto, não sobrecarregar demasiado os serviços de saúde e aguardar por uma vacina ou um antiviral eficaz. E quanto vai custar esse tempo? A curto prazo, uma quebra significativa do PIB e, a médio prazo, uma política de austeridade porque alguém vai ter de pagar a fatura. Ou seja, para além dos danos no âmbito da saúde, há custos económicos, traduzidos na quebra da produção de riqueza, e financeiros, decorrentes do maior endividamento para fazer face às despesas.

Tratando-se de uma guerra, o desafio que enfrentamos é também mundial. As últimas vezes que isso aconteceu foi entre 1914-18 e 1939-45. E o que se seguiu a esses dois conflitos foi totalmente distinto: da 1.ª Guerra Mundial resultou mais protecionismo e toda uma série de radicalismos que só se resolveram com uma segunda guerra, também mundial. Esta, por seu turno, deu origem a um período de cooperação, de paz, de solidariedade internacional e de aprofundamento da democracia como nunca se tinha visto.

A pergunta que se coloca é: como será o mundo depois do atual conflito? Teremos um recrudescimento dos nacionalismos e extremismos, reforçando a tendência que já se vinha registando nos últimos anos? Ou terá esta guerra o mérito de infletir o curso da História, fortalecendo os laços de entendimento entre os principais atores mundiais? Infelizmente, a maneira – desarticulada! – como cada país está a lidar com a pandemia não augura grandes alinhamentos futuros. Basta ver o que se passa na União Europeia para não se ficar com grandes esperanças.

Para além destas incertezas de cariz geopolítico, outras há que se colocam mais na esfera dos negócios:

  • – Quais os setores que vão ganhar e quais os que vão perder no pós-pandemia?
  • – Que alterações irão ocorrer no comportamento dos consumidores?
  • – E que impactos terá a pandemia na forma de organizar as cadeias de abastecimento?
  • – Manter-se-á a dispersão geográfica das principais cadeias de valor globais como até aqui?
  • – Que adaptações será necessário introduzir nos modelos de negócio para dar resposta a todos estes desafios?

Como se constata, tenho mais dúvidas do que certezas. Verdadeiramente, nesta altura ninguém consegue prever com um mínimo de rigor como será o mundo pós-Covid-19. Até porque não sabemos quanto tempo tudo isto irá durar. É que o “tudo” envolve não só a fase atual, mas também eventuais ondas pandémicas que venham ainda a ocorrer.

Em termos de gestão empresarial estamos, pois, num daqueles períodos em que a análise de cenários faz mais sentido do que nunca. Aquilo que as empresas devem fazer não é tentaram prever o futuro, mas anteciparem possíveis situações – ou cenários – e desenvolverem planos de contingência para cada um deles.

Neste momento há demasiadas incógnitas quanto ao futuro. E pior do que falhar uma previsão, é ser apanhado completamente desprevenido quando o futuro se tornar presente.

 

Carlos Brito, vice-reitor da Universidade Portucalense

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