Opinião

TikTok, a geração Z bateu à porta

Screen-Shot-2019-03-11-at-5.54.29-PM-e1552352159992-1060x594

Esta app ainda não foi invadida pelos adultos jarretas, e como tal é território premium para a geração que cresceu online

O vídeo em que Natalie Pluto consegue atingir o seu “truque de sonho” em longboard chegou perto das 55 mil visualizações no Instagram. Foi publicado em janeiro num dia de sol no paredão de Venice, Califórnia, onde parece haver sempre mais gente de skate, longboard, patins ou bicicleta que a andar a pé. No Twitter, o mesmo vídeo teve 822 visualizações e 44 “gostos”. A jovem ‘longboarder’ não colocou o “truque” no YouTube, mas publicou uma versão mais curta numa app relativamente nova, vinda da China, chamada TikTok. A diferença de alcance foi incrível: na app, o vídeo vai com 3,7 milhões de “gostos” e 12,6 mil comentários; aparece no topo da página de tendências da aplicação.

É possível que muita gente nunca tenha ouvido falar da TikTok (ou tenha confundido com o primeiro single de Ke$ha), mas a app é um autêntico fenómeno. Passou a marca dos mil milhões de downloads e já conta 500 milhões de utilizadores em 150 países – é mais popular que o Twitter. Em pouco tempo, esta espécie de rede social de vídeos curtos deixou todas as outras a comer pó numa das faixas de idades mais apetecível e esquiva: a dos adolescentes.

São eles as estrelas destes vídeos normalmente criativos, com duração de 15 a 60 segundos, quase sempre com música e a mostrar truques, acrobacias, piadas ou partidas. Também há vídeos mais sérios, com confissões ou mensagens, como é o caso de um clip publicado por Robert Schiff mostrando apenas a sua cara coberta de acne e a legenda “É mais do que o que está na superfície que dói…”. O vídeo vai nos 16,9 mil comentários, que são maioritariamente de apoio.

O sucesso da TikTok é algo desconcertante, um pouco como foi o da Vine (que o Twitter comprou e mais tarde encerrou) e do Snapchat. Quantas plataformas são necessárias para publicar os mesmos vídeos? E para os consumir? YouTube, Facebook, Instagram, Snapchat, Twitter, Vimeo, TikTok – a lista vai crescendo com a audiência.

A TikTok surgiu partir da Musical.ly, em que os participantes faziam playback de forma criativa, e esse ainda é um forte componente da plataforma – vejam a portuguesa Carolina Dias a fazê-lo.O segredo parece ser também uma mistura de desafios agrupados por hashtags, um certo toque de estranheza e o facto de ser habitada sobretudo por miúdos da Geração Z (os sucessores dos Millennials, nascidos entre 1995 e 2015). Os adultos jarretas ainda não lhes invadiram o espaço, como fizeram com outras redes sociais, e como tal a app continua a ter um sentido de frescura e apropriação geracional que contribui para a sua popularidade nesta faixa etária.

É provável que assim se mantenha, salvo a ocasional participação da avozinha telegénica e das celebridades mais velhas, como o comediante Jimmy Fallon e os seus desafios bem-sucedidos. Um dos mais recentes é o #tumbleweedchallenge, no qual os participantes se atiram para o chão a rebolar como partes de plantas levadas pelo vento. Lembrei-me imediatamente do Lying Down Game, cujo desafio era tirar fotos em posição horizontal, de barriga para baixo e com os braços estendidos ao longo do corpo, tentando fazê-lo nos sítios mais ridículos. Custa a crer que este “jogo”, que até levou a despedimentos, foi a loucura do Facebook em 2009 – há nada menos que dez anos.

Na TikTok, alguns dos desafios mais populares neste momento são o #faketravel, que incentiva as pessoas a fingirem que viajaram para outro local a partir de casa, o #grababook, que pede para pegar num livro e abrir numa página aleatória e ler a primeira palavra, ou o #shoutouttomyex, onde os participantes mostram aos ex-companheiros como estão a viver “a melhor vida”.

Embora haja muita permeabilidade entre esta e as outras redes sociais, dá a sensação de que a TikTok encoraja mais comportamentos positivos entre os utilizadores. Não sei se é uma questão de tempo até à invasão dos trolls ou se é preciso passar mais tempo na secção de comentários para os encontrar, mas sabendo nós como o YouTube está cravejado de problemas e como o Facebook se tornou em muitos casos a sanita da Internet, percebe-se melhor porque é que a TikTok é tão popular junto da primeira geração que nunca conheceu um mundo exclusivamente offline.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
João Leão e Mário Centeno. Foto: Tiago Petinga/Lusa

Governo impõe aumento de 0,3% na função pública. Impacto pode ser de 70 milhões.

João Leão e Mário Centeno. Foto: Tiago Petinga/Lusa

Governo impõe aumento de 0,3% na função pública. Impacto pode ser de 70 milhões.

Christine Lagarde, presidente do BCE. Fotografia: REUTERS/Johanna Geron

Lagarde corta crescimento da zona euro para apenas 1,1% em 2020

Outros conteúdos GMG
TikTok, a geração Z bateu à porta