Opinião

Tirar aos pobres para dar aos ricos

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Numa recente entrevista televisiva, o CEO da Apple Tim Cook falou da urgência de passar uma reforma fiscal gigantesca nos Estados Unidos, desenhada para beneficiar corporações como a sua. As palavras de Cook, uma das vozes de Silicon Valley que fez pressão sobre os republicanos para aprovarem esta reforma com regras que os favorecem, não caíram em saco roto. O Congresso aprovou uma reforma de 500 páginas desenhada em cima do joelho, com anotações e modificações escritas à mão à última da hora, sem que a maioria dos senadores tivesse conseguido lê-la. Não houve tempo. Os republicanos precipitaram-se para a primeira grande vitória legislativa da presidência de Trump e os democratas atiraram-se a eles nas rede sociais, denunciando um processo feito às escuras de que quase ninguém percebe nada.

Mas sabemos isto: haverá um corte substancial de impostos para as grandes empresas e para a classe alta. Quando mais dinheiro fizerem, mais serão beneficiados por esta reforma fiscal, que adicionará 1.4 biliões de dólares à dívida norte-americana (aquela conversa de rigor fiscal que os republicanos gritaram durante os oito anos de Obama? Era uma treta monumental).

A premissa deste corte de impostos é que as empresas vão usar o dinheiro extra para criarem mais postos de trabalho e reinvestirem na economia, uma alucinação coletiva dado que não foi nada disso que se passou, historicamente, em reduções de impostos anteriores. As empresas agarram no dinheiro, recompram ações e aumentam os dividendos aos investidores. Dão prémios de desempenho mais chorudos e talvez substituam a frota de carros de luxo ou comprem novos jatos privados (que também beneficiam desta reforma).

Os democratas tentaram impor um mecanismo que obrigasse as empresas a usar o dinheiro extra para dinamizar a economia, já que esse é o propósito da legislação, mas obviamente tal provisão não passou.

A expectativa dos republicanos é que o rombo que estes cortes vai causar seja compensado por um crescimento brutal da economia, uma crença semelhante à busca por unicórnios na Antártica. Nenhum economista antevê qualquer cenário em que isto seja possível. Mas a matemática usada nesta reforma fiscal não é a do desenvolvimento económico, é a da influência dos grandes apoiantes das suas carreiras políticas. Sem os donativos provenientes de grandes empresas, ninguém faz nada. E sem passar cortes chorudos de impostos ao gosto destes magnatas, a fonte secaria. Os republicanos nem tentaram esconder isso, conforme disse às claras Chris Collins, representante por Nova Iorque.

Silicon Valley aprendeu a jogar este jogo, tal como as industrias farmacêutica e do petróleo. Apesar de ser um meio liberal, que teria preferido Hillary Clinton, o vale do silício soube jogar com a administração de Donald Trump e enviou centenas de representantes para fazer lóbi junto do Congresso, de forma a garantir que as suas prioridades entravam nesta reforma fiscal. Grandes empresas como a Apple, Google e Microsoft poderão repatriar milhares de milhões de dólares pagando muito pouco, e verão as suas contribuições reduzidas substancialmente. Alguém acredita que terão planos de expansão repentinos? A Apple não abre novas lojas conforme o código fiscal que está em vigor. Abre se houver mercado para os seus produtos naquela localidade. Este tipo de decisões, para corporações de tal dimensão, é feito à revelia do resto. É nas pequenas e médias empresas que está o verdadeiro motor da economia, e estas não vão beneficiar tanto.

É também na classe média e nos seus gastos que está a chave para o crescimento, não nos aviões privados dos super ricos. Os cortes de impostos para os cidadãos comuns serão provisórios e em muitos casos enganadores. Há quem vá efetivamente pagar mais. Os estudantes universitários que receberem ajudas, por exemplo, vão passar a pagar (não esqueçamos que um curso superior custa, em média, 150 a 200 mil dólares). As deduções que muitas famílias usam irão desaparecer.

Em breve, e dado o buraco que irá ser criado, o governo vai começar a dizer que não há dinheiro para programas de segurança social e a cortar a torto e a direito. Foi exatamente o que fez Arnold Schwarzenegger na Califórnia, depois de um corte massivo de impostos em 2004. O governador deixou as finanças do Estado no caos absoluto, triplicando a dívida. Isto da matemática raramente engana. Os efeitos desastrosos desta reforma irão fazer-se sentir no médio prazo, e talvez Trump e os republicanos consigam deitar as culpas para cima de outros. Hão de acreditar sempre que trickle down economics funciona, não importa quantas vezes se demonstre que estão errados. Dizem que a versão esquerdalha da economia não dá certo porque durante o mandato de Obama o crescimento foi anémico, ignorando que o presidente herdou a maior crise desde a Grande Depressão e conseguiu pôr o país novamente no bom caminho. Haverá uma fórmula infalível? Certamente que não. O mais provável é que a receita apropriada esteja no meio, entre a esquerda e a direita.

Do que não há dúvidas é que esta reforma fiscal é uma espécie de Robin dos Bosques ao contrário – vai buscar aos pobres para contentar os ricos. A ironia é que a base de apoio de Trump é a classe que acabará por sofrer com isto.

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