Opinião: João Almeida Moreira

Tiririca e os palhaços

REUTERS/Adriano Machado
REUTERS/Adriano Machado

Num momento de enorme gravidade foram raros os deputados que se comportaram com a dignidade mínima.

“Vocês acham mesmo que ficar jogando boneco para cima e para baixo, de um lado para o outro, é uma imagem bonita para o Brasil?”, perguntou do seu palanque Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados do Brasil, durante a votação na semana passada sobre a continuidade das investigações contra o presidente Michel Temer por corrupção passiva.

Lá em baixo, deputados pró e contra o governo lutavam por um “pixuleko”, boneco insuflável com a caricatura de Lula da Silva vestido de presidiário que se popularizou durante os protestos a favor do impeachment de Dilma Rousseff do ano passado.

Paulo Teixeira, deputado do PT, o partido de Lula e Dilma, pegou no “pixuleko” e mordeu-o até rebentar. Wladimir Costa, o parlamentar do Solidariedade que apoia Michel Temer e que havia atirado o boneco para o meio da confusão, não se deu por vencido e apareceu com novo “pixuleko”, alimentando mais bate-bocas e empurrões. Foi nessa altura que Maia interveio.

Mas esse não foi o único incidente circense de uma sessão que poderia, na prática, derrubar um chefe de Estado. O mesmo Wladimir Costa, conhecido no Pará natal, onde é vocalista de banda de música brega, como Wlad, já antes se destacara ao ser apanhado a pedir, através do aplicativo Whatsapp, para uma jornalista lhe “mostrar a bunda”. Defendeu-se mais tarde ao dizer que a mensagem era uma resposta a uma provocação da repórter, que o desafiara a mostrar o ombro.

É que nesse ombro, no fim-de-semana que antecedeu a votação, o deputado tatuou “Temer” e difundiu a imagem nas redes sociais. “Doeu mas valeu a pena porque sempre que a dor vinha me lembrava de um dos maiores estadistas que este país já teve”, afirmou na ocasião. No entanto, especialistas em tatuagens, deputados da oposição e essa jornalista desafiaram Wlad a mostrar o ombro na Câmara porque, garantiram, a inscrição era provisória, daquelas que sai com água ao fim do dia.

Wlad, que tem seis tatuagens na região genital em homenagem à mulher – “ela é o meu ídolo”, diz ele – é tão fã de Temer – “o meu segundo ídolo”, garante – que lhe beijou a mão após a votação que blindou o presidente. Não por acaso, o deputado foi presenteado pelo governo nos últimos dias com o equivalente a 500 mil euros para gastar no seu círculo eleitoral, segundo dados da Agência Lupa e da ONG Contas Abertas.

Não foi o único: estima-se que Temer tenha gasto 2,3 mil milhões de reais [600 milhões de euros] em presentes a deputados indecisos às vésperas da votação. Por vésperas, leia-se até minutos antes do início da sessão: quatro dos seus ministros andavam a percorrer o plenário a distribuir os últimos afagos a duas dezenas de parlamentares.

Por isso, a oposição, contribuindo para o circo, atirou ao ar malas cheias de notas (falsas, claro) em pleno parlamento e circulou com cartazes com Temer caricaturado como um morcego e ladeado de ratos.

Num momento de enorme gravidade – o presidente podia ou não ser afastado por seis meses por estar a ser investigado por crime de corrupção – foram, portanto, raros os deputados que se comportaram com a dignidade mínima. Entre as exceções, o económico, nos atos e nas palavras, deputado Tiririca, do PR, que ao contrário dos colegas é palhaço de profissão só após o horário de expediente.

Porque nem o presidente da Câmara Rodrigo Maia, tão indignado com a guerra de “pixulekos”, escapou da palhaçada. Conhecido por “Botafogo”, o seu nome de código na planilha de pagamento a corruptos da construtora Odebrecht, apressava os discursos porque, dizia a quem quisesse ouvir, queria despachar a sessão a tempo de ver na TV o jogo do Botafogo, claro, com o Palmeiras.

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