Tornar o mundo melhor

A propósito do «Dia Internacional da Educação» e do papel do professor, relembro Agostinho da Silva, cuja perspicácia e inteligência sempre alimentam o espírito: "o mestre é o Homem que não manda; aconselha e canaliza, apazigua e abranda". Tornar alguém melhor - eis todo o seu programa.

Longe vão os tempos em que o professor era a fonte do conhecimento, sendo uma parte importante da sua função disseminar conhecimento pouco acessível, guardado em livros de difícil alcance e bibliotecas longínquas. Com a informação cada vez mais disponível à distância de um clique e em quantidades avassaladoras, já não cabe ao professor essa função. E com o amadurecimento de ferramentas de inteligência artificial, como o ChatGPT, não lhe caberá sequer a primazia de promover a ligação entre conceitos.

Olhos mais pessimistas anteverão um cenário em que alunos autodidatas acedem aos conteúdos de que necessitam, tornando o papel da escola (e do professor) obsoleto. Olhos mais otimistas (realistas?) verão a tecnologia como fundamental para libertar quem ensina da parte menos estimulante (debitar informação), alavancando a parte mais nobre da sua função: despertar a vontade de aprender, aguçar a curiosidade e o espírito crítico, ensinar a colocar as questões certas, dar bases para a compreensão da informação e das soluções fornecidas por tecnologia cada vez mais evoluída.

Do lado de quem aprende, a digitalização das ferramentas de aprendizagem promete tornar o ensino mais inclusivo e acessível, mas não deverá impactar negativamente a motivação para a aprendizagem: abrir horizontes, compreender novos temas, identificar soluções, estimular a mente.

Ao nível da gestão, o surgimento de ferramentas alicerçadas em tecnologia poderá ser fundamental para anular o fosso existente entre fazer e saber. Dados recentes, de estudos das Fundações José Neves e Francisco Manuel dos Santos, segundo os quais quase metade dos empregadores e gestores portugueses não completaram o ensino secundário, e apenas 1/3 das nossas empresas tinham um gerente com escolaridade ao nível do Ensino Universitário, contrastam com a procura crescente de formação executiva, e com o lugar de Portugal enquanto 3º país com melhor posição nos rankings do «Financial Times Europeu» para formação de executivos, evidenciando a procura de educação em Gestão, mesmo que, mais tarde, e ao longo da carreira. A formação contínua e abrangente será ainda mais crucial no futuro próximo, que se adivinha disruptivo, e que exigirá respostas rápidas em cenários inconstantes, com eliminação de funções conhecidas e criação de outras nunca antes imaginadas, e decisões assentes em informação fornecida por máquinas cada vez mais inteligentes.

Talvez num futuro um pouco mais distante, essas máquinas superinteligentes desempenhem grande parte das nossas funções, libertando-nos do lado rotineiro e do excesso de trabalho, permitindo-nos maior foco no que gostamos de fazer, ao nosso ritmo, sem prejuízo de alcançarmos o nível económico desejado. As máquinas assegurarão essa parte fundamental.

E, de novo, volto a Agostinho da Silva: "Espero que, um dia, tudo o que é obrigatório fazer, hoje, para assegurar a campanha de produção deixe de ser necessário porque as coisas vão melhorando de tal ordem, que será possível a cada um entrar cada vez menos nesse jogo geral [da produção]. E, então, cada um pode dar a sua mensagem particular ao mundo e fazer a sua obra, porque é único. Acho que chegaremos a esse tempo, porque, quando se olha para a marcha da história, as aproximações têm acontecido e estão a acontecer hoje de uma forma cada vez mais rápida".

Renata Blanc, Diretora do International MBA da Porto Business School

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