Transformação digital na área da saúde

A transformação digital no acompanhamento do tratamento dos doentes com apneia do sono: os benefícios da telemonitorização

A transformação digital na área da saúde, à semelhança de outros sectores, tem sido reconhecida como um eixo estratégico capaz de beneficiar o Sistema de Saúde e a população. No contexto pandémico que vivemos, em que milhares de consultas médicas presenciais foram adiadas e canceladas, tanto para o diagnóstico como para o acompanhamento de doentes em tratamento, a transformação digital surge como uma oportunidade de aumentar a capacidade assistencial do sistema e a acessibilidade, garantindo a qualidade e efetividade na prestação de cuidados. Os passos que estão a ser dados na área da telemonitorização têm um claro impacto positivo para os doentes crónicos, como é o caso dos indivíduos com síndrome da apneia obstrutiva do sono. Apesar de não ser fator de risco para a COVID-19, muitos destes doentes têm co-morbilidades como obesidade, diabetes, hipertensão ou outras doenças cardíacas o que as coloca no grupo de risco de complicações mais graves em caso de infeção por COVID-19, pelo que a sua circulação social e, especialmente, em hospitais ou centros de saúde deve ser acautelada e reduzida ao estritamente necessário, para sua proteção.

O tratamento mais indicado para o síndrome de apneia obstrutiva do sono (SAOS) consiste na terapia com a pressão positiva contínua na via aérea, comumente conhecido como CPAP (acrónimo do inglês “Continuous Positive Airway Pressure”). A eficácia do tratamento depende da sua utilização contínua durante o período de sono. Quer a utilização, quer a eficácia são avaliados periodicamente pelo médico que acompanha o doente com SAOS, sob terapia de CPAP ou auto-CPAP.

O acompanhamento destes doentes foi impactado pelas restrições impostas pela pandemia da COVID-19 e pela limitação ao acesso às consultas presenciais, que de acordo com os números apresentados pelo Movimento Saúde em Dia, no início do mês de Setembro, tiveram uma redução de 36% nos primeiros seis meses deste ano, em comparação com o período homólogo em 2019. Daí que, o acesso do doente ao médico tenha sido potenciado através de tele consulta.

Com o advento da Saúde 4.0 que se baseia em tecnologia digital e acesso a dados para transformar e melhorar a prestação de cuidados de saúde, tem sido possível aos fabricantes de CPAP’s e auto-CPAP’s integrar tecnologia de dados que permite a monitorização remota destes dispositivos médicos. Os prestadores de cuidados respiratórios domiciliários têm, assim, a possibilidade de integrar esta tecnologia nos seus processos de forma a disponibilizar a informação aos médicos, facilitando o acompanhamento dos doentes.

Contudo, a transformação digital não pode residir somente no uso de tecnologia de dados sob pena de não cumprir os seus desígnios. É fundamental garantir a adequação dos processos e investir na formação dos profissionais. A monitorização remota facilita a customização do acompanhamento do tratamento a cada indivíduo, detetando potenciais problemas de forma precoce, o que permite remeter para as equipas de assistência domiciliária ou para as equipas médicas a informação necessária à intervenção técnica e tomada de decisão clínica. O interface entre o doente e o médico tem de ser garantido por equipas interdisciplinares de profissionais de saúde, tecnicamente especializados, que procedam à monitorização remota, com a frequência adequada, intervindo previamente por contacto telefónico ou “videochamada”, sobretudo nas fases iniciais de adaptação à terapia quando surgem os principais problemas de adaptação, solicitando as intervenções das equipas domiciliárias e referenciando os casos para o médico que acompanha o doente.

Para o médico que efetue teleconsulta, os dados telemonitorizados da terapia podem ser um adjuvante num contexto quer de teleconsultas síncronas, quer assíncronas. As teleconsultas pelos médicos e as televisitas dos prestadores de cuidados respiratórios domiciliários não substituem o acompanhamento presencial e devem sempre ser ajustadas ao nível de risco de cada doente, ao longo do tempo.

A informação quantitativa obtida dos dispositivos médicos e a informação qualitativa obtida através das televisitas e das visitas domiciliárias, deve ser integrada de forma a facilitar a partilha segura, num portal de acesso clínico.

Esta transformação assistencial estimulada pela monitorização remota é, deste modo, um fator de proteção para estes doentes de maior risco, permitindo manter o nível de qualidade dos cuidados e colmatar os hiatos assistenciais originados pelas restrições impostas pela pandemia da COVID-19.

A transformação digital na prestação de cuidados de saúde é imperativa e inevitável para aumentar a capacidade de resposta do sistema de saúde, implicando o acesso a tecnologia de dados, a adequação dos processos e o alinhamento cultural de todos os intervenientes - profissionais, doentes e cuidadores - para uma implementação segura e sustentável.

João Tiago Pereira, Product & Business Development Manager na Linde Saúde

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