Opinião

Transição para uma nova normalidade

Fotografia: Miguel Pereira/Global Imagens
Fotografia: Miguel Pereira/Global Imagens

Esta é claramente uma oportunidade para a velha Europa voltar a assumir uma centralidade produtiva e industrial

Existem três verdades que incontornavelmente irão marcar os tempos que se avizinham, agora que as autoridades apontam a agenda no sentido de um desconfinamento parcial, ordeiro e cauteloso, desde que o país entrou, há já mês e meio, em estado de emergência:

1 – A sociedade, e por maioria de razão as empresas e as pessoas, irão continuar a viver tempos de adaptação forçada: os setores de atividade que forem mais ágeis e resilientes nas respostas, com regenerados modelos de negócio, estarão certamente mais bem preparados para os tempos que se avizinham. Não sabemos se é uma travessia no deserto ou um desafio de mera transição. Mas antecipamos, isso sim, que este vai ser um tempo mais digital e menos material, mais online e menos presencial.

2 – Interrogamo-nos se e quando vai tudo voltar ao dito “normal”. Existirá seguramente uma nova ordem de normalidade e uma realidade que se prevê incerta, mas sobretudo exigente. Diferente!

3 – São incertas as sequelas económicas do pós-covid. Em 2012, o último “annus horribilis” das contas nacionais, a economia portuguesa emagreceu 4,1%. Estimativas relativamente consensuais apontam para uma perda de valor do PIB na casa dos 8%, mas há quem vaticine que pode alcançar os dois dígitos.

Por partes: esta é claramente uma oportunidade para a velha Europa voltar a assumir uma centralidade produtiva e industrial, num contexto em que as importações industriais da Ásia já caíram mais de 15% desde o início desta crise. A gestão dos stocks obedecerá a uma lógica crescentemente “just in time”, o que implica maior capilaridade e aumentada proximidade das cadeias de abastecimento, ou seja, maior proliferação de fornecedores, transportes mais capilarizados e modelos de “supply-chain” ajustados a um ciclo “matéria prima-produto acabado”, forçosamente mais próximo e menos dependente de fatores exógenos. No limite, empresas e famílias, todos quererão ter as suas despensas e os seus economatos à mínima das distâncias. Aqui chegados, impõe-se pensar o futuro imediato do setor logístico e do transporte, e sobretudo da energia que o mobiliza.

Pode não ser a antecâmara do mundo ideal, mas a reconfiguração forçada das cadeias de valor do setor transportador, vão reclamar empresas mais eficazes (as que fazem as coisas certas na dimensão estratégica do negócio), e mais eficientes: aquelas que fazem as coisas bem feitas e que alocam menos ou melhores recursos ao seu out-come final.

Se os investigadores de Oxford conseguirem colocar a vacina de prevenção do novo Coronavírus, já em setembro deste ano no mercado, ou se o tratamento massificado chegar só em 2021, será tudo uma questão de meses para que o Brent faça um novo rally até aos 60 dólares por barril e lá se apaga a esperança, ainda que ténue, que o afundamento do preço internacional do petróleo para valores abaixo dos 20 dólares, pudesse ser a coca-cola no deserto que iria saciar os ganhos de produtividade do setor transportador. Puro engano. Mutações estruturais nas economias, não são nunca alicerçadas em efémeras realidades.

Daí, e a propósito da falada eficácia, mas sobretudo da tão necessária eficiência, cada vez mais a bandeira de pragmatismo na economia dos transportes, terá de passar pela diversificação das fontes energéticas que suportam a mobilidade de pessoas e bens. Viveremos todos tempos de transição. De transição estratégica nas empresas, de transição quotidiana no nosso “modus vivendi” diário, de transição operacional na forma de trabalhar, mas acredito que também de transição energética.

Esta, com soluções maduras. Com respostas presentes. Com receitas que não vivam na estratosfera. Diminuir a dependência e o vício da economia no petróleo, será também um dos vértices desse tempo de transição, onde alternativas como o gás natural, o biometano e outros gases renováveis, possam ajudar a adicionar competitividade às empresas onde a função transporte e/ou logística representam um peso considerável no portfolio de atividades. E no fim, termos, não só uma economia mais saudável do ponto de vista da saúde pública (que todos, mais que nunca, desejamos) mas também mais neutra em carbono e ambientalmente mais responsável, que todos, seguramente uns mais que outros, há muito acreditamos.

 

João Filipe Jesus, economista, diretor-geral Dourogás Natural

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