Opinião

Trillion dollar baby

O anúncio de que Steve Jobs resignou ao cargo de CEO da Apple fecha um capítulo num dos maiores legados de inovação. Descubra as dez maiores conquistas de Jobs nos últimos 30 anos

O endeusamento de empresários e empresas fenomenais faz parte do culto capitalista dos EUA e este fenómeno bolsista também se enquadra aí

Duas semanas antes de Steve Jobs anunciar a sua retirada como CEO, em agosto de 2011, a Apple tornou-se por breves momentos a companhia mais valiosa do mundo, atirando a Exxon Mobil para segundo lugar. Na altura, a capitalização bolsista da marca da maçã atingira 341,55 mil milhões de dólares, com cada acção a valer 404 dólares. Fora um feito notável, uma espécie de corolário da década incrível em que Steve Jobs levou a tecnológica das cinzas até à glória.

Jobs morreria dois meses depois, já com o protegido Tim Cook no poder. Durante muito tempo, o mercado questionou-se sobre o que seria da Apple sem o visionário fundador, criticando as opções de Cook e lamentando a espaços a perda da veia inovadora. Na semana passada, obtivemos a resposta mais clara que poderia ser dada: a Apple tornou-se a primeira empresa a atingir uma capitalização bolsista de um bilião de dólares, que no sistema anglo-saxónico se designa por trilião. As acções bateram no número mágico de 207,05 dólares (isto após o “split” de 7-1 em 2014) e o desfecho que se aguardava há algum tempo aconteceu.

O curioso deste marco notável é que a euforia de Wall Street com os resultados trimestrais da Apple não se deveu a nenhuma subida extraordinária das vendas. A marca até perdeu o segundo lugar no ranking mundial de smartphones para a Huawei. A venda de iPhones subiu apenas 1% em relação ao período homólogo. As vendas de Macs e iPads caíram. O que deixou os investidores extasiados foi a rentabilidade impressionante da empresa no trimestre mais aborrecido do ano, com um aumento de 17% nas receitas e de 32% nos lucros.

A vender quase o mesmo número de iPhones, a Apple conseguiu encaixar muito mais dinheiro com os smartphones (+20%), graças aos preços elevados do iPhone X.

Isto, meus caros, é Tim Cook a mandar uma chapada virtual a quem, como eu, duvidou da sua estratégia. O CEO pode não ter os pózinhos mágicos que encantavam multidões nos dias de Steve Jobs, mas a sua sagacidade e capacidade de manter a empresa a crescer são inegáveis.

Há ainda a notar que é um pouco injusta a ideia de que a Apple perdeu o fulgor inovador. No final de 2005, ano em que a empresa mudou de processadores IBM para Intel e as suas acções valiam 10 dólares cada, 50% das receitas provinham do leitor de música digital iPod. Dois anos depois, o iPhone entrou a pés juntos no mercado e tornou-se na estrela da companhia. Três anos depois, o iPad foi “a tábua mais falada desde o tempo de Moisés.”

É verdade que o Apple Watch, os AirPods, o HomePod e outros produtos que foram sendo introduzidos não se tornaram em loucuras do mercado de massas como os anteriores. Mas o sucesso de Cook também está aí: conseguiu diversificar o portfólio da Apple sem incorrer em verdadeiros flops. O mix de produtos que contribuem para os gordos cofres da Apple tem mudado de forma gradual, com os serviços e os wearables (Watch, Beats, AirPods) a crescerem de forma sustentável. E isto enquanto andávamos todos a comparar a monocelha do iPhone X com a velocidade super sónica dos novos Galaxy S9 da Samsung (que, só por pirraça, não estão a vender grande coisa).

Há um bilião de razões para admirar o percurso da Apple, mesmo com percalços e decisões duvidosas pelo caminho. É uma empresa puramente de produtos e tecnologia, que não precisa de vender a nossa privacidade ao diabo para ajudar terceiros a impingirem-nos anúncios “personalizados.” Não vive de publicidade. Não precisa de nos caçar com cookies e olhos indiscretos enquanto andamos online. Não nos vende banha da cobra em troca de serviços “gratuitos.”

Mas beneficia de um mercado laboral injusto na China, safou-se a pagar os impostos que devia durante muito tempo, cultiva um secretismo draconiano com dificuldades de admitir erros e tem a sorte de Silicon Valley ser um faroeste empresarial com pouca intervenção reguladora, que permite a tecnológicas como ela tornarem-se estas bestas incontroláveis – e, talvez agora, demasiado grandes para falhar.

O endeusamento de empresários e empresas fenomenais faz parte do culto capitalista dos Estados Unidos, e este fenómeno bolsista também se enquadra aí. Somos culpados desse deslumbramento.

Dito isto, a verdade é que compra Apple quem quer – e quem está disposto a pagar preços mais elevados sabe ao que vai. A marca não detém monopólios, mas continua a cultivar o seu jardim proprietário. É uma estratégia que fez vingar como ninguém e que lhe rendeu, além do ódio de estimação de muita gente, mais este lugar na história: a primeira trillion dollar baby. Conseguem ouvir o tilintar de copos de champanhe em Cupertino?

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