Trump e os mercados

Olhando para Portugal, a nossa taxa de juro subiu 0,5%, enquanto em Itália e Espanha subiu 0,35%

Os movimentos nos mercados financeiros desde a eleição de Donald Trump têm sido interessantes. Não só pelas impressões que revelam sobre o que pode ser a sua política económica, mas também pelo que dizem sobre a estrutura destes mercados, e pelos riscos para Portugal.

As taxas de juro de longo prazo na dívida americana subiram cerca de 0,4% a seguir ao primeiro discurso de Trump. A única parte substantiva do discurso era a promessa de aumentar a despesa e dívida públicas para investir em infraestruturas. Este aumento no défice tenderá a aumentar a taxa de juro por duas razões: primeiro, porque há menos poupanças para financiar o investimento; segundo, porque a inflação deve subir. Por isso, é maior a probabilidade de a Reserva Federal aumentar as taxas de juro em 2017. A taxa de juro a 10 anos aumenta logo.

Por sua vez, a taxa de juro alemã subiu cerca de 0,1%. Em parte, porque também aumentaram as expectativas de um estímulo fiscal na Europa. Noutra parte, porque o aumento da incerteza económica levou a uma venda de obrigações pelo mundo fora. Nos países emergentes, sempre mais sensíveis aos choques nos mercados financeiros ou no comércio internacional, as taxas de juro subiram ainda mais. As receitas destas vendas foram repatriadas para os EUA levando à valorização do dólar. Confirmou-se a grande perversão dos mercados financeiros internacionais: sempre que aumenta a incerteza, os investidores buscam segurança mudando os seus capitais para os EUA, mesmo quando o aumento da incerteza teve a fonte… nos próprios EUA.

Olhando para Portugal, a nossa taxa de juro subiu 0,5%, enquanto em Itália e Espanha subiu 0,35%. Esta subida provavelmente não tem nada a ver com as notícias do orçamento, do crescimento económico, ou das declarações de qualquer político. Todas as taxas de juro estão a subir, mas sobem mais nos países mais frágeis. O que se confirma é que, de há um ano para cá, os mercados da dívida tiraram Portugal do cesto em que estão Espanha e Itália.

O que é que tudo isto implica para Portugal? Por um lado, Portugal beneficiaria (mas não muito) de alguma expansão fiscal na Alemanha, e a pressão política sobre os limites do défice será menor. Para estimular a nossa economia, Portugal provavelmente também beneficiaria com o aumento da inflação e a desvalorização do euro. Por outro lado, a subida das taxas de juro é má notícia. Não por causa da DBRS, cujas opiniões valem muito menos do que os jornalistas portugueses pensam. Não por causa do impacto directo no défice público, porque as nossas necessidades de financiamento são pequenas nos próximos meses. Antes porque o outro lado desta subida são as perdas realizadas pelos bancos portugueses que detém títulos da dívida portuguesa. Se os juros subirem 1% ou mais nas próximas semanas, estas perdas serão avultadas. Se subirem mais e repentinamente, os bancos espanhóis e italianos ficam em graves apuros. Tal como há 6 anos, um choque nos EUA pode trazer uma crise maior na Europa.

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