Opinião: Ricardo Reis

Trump em Portugal

Fotografia: REUTERS/Mike Segar
Fotografia: REUTERS/Mike Segar

O comportamento grotesco de Trump provoca reações, mas é importante não perder o norte nos tempos conturbados que nos esperam.

Nos últimos meses, foram inúmeras as análises à política americana nos jornais portugueses, muitas delas com qualidade. Olhar para os assuntos lá fora tem a vantagem de libertar os comentadores para exprimir mais livremente as suas opiniões sem pensar nos múltiplos debates em que estão envolvidos em Portugal. Ao mesmo tempo, esta liberdade expõe incoerências e contradições.

À direita, li nesta semana críticas à enorme manifestação das mulheres contra Trump. Para alguns críticos, o discurso de muitos participantes era incoerente. Para outros, quem marchou devia antes aceitar a derrota nas eleições, ou concentrar-se em ações mais produtivas. Isto vindo da mesma direita que admira o individualismo americano, a liberdade de criticar o governo e até mesmo a importância do porte de armas como garantia da liberdade perante o governo.

Que tantos milhões de pessoas venham para a rua protestar, de forma parcialmente espontânea e por isso incoerente no discurso, contra um governo que se quer intrometer na sua vida, devia ser motivo de admiração para a direita liberal. Quem admira a saída à rua contra o comunismo em julho de 1975 na fonte luminosa não pode depois achar que as manifestações não contam para nada.

Já quanto a aceitar a derrota, note-se que Trump ganhou de acordo com as regras de representação dos votos, apesar de ter tido três milhões menos de votos do que Clinton. António Costa e o PS ganharam o governo de acordo com as regras, apesar de terem menos votos do que Passos Coelho. Costa rompeu a tradição parlamentar em Portugal e Trump rompe todas as semanas tradições democráticas americanas. Como é que se pode passar meses a criticar o suposto golpe ilegítimo do governo atual e depois achar que os americanos contra Trump só têm é mau perder?

À esquerda, quem passou os últimos anos a falar das maravilhas dos défices públicos, do triunfo de Keynes e dos multiplicadores sem limites, de repente, acha que os planos republicanos para cortar impostos e construir infraestruturas são um ultraje. A esquerda que se arroga sempre de defensora das classes trabalhadoras agora refere-se a estas pessoas como o eleitorado ignorante e racista. A esquerda que sempre se queixou do intervencionismo externo americano agora diz recear a retirada dos Estados Unidos da Nato.

Por fim, como os melhores analistas políticos têm notado, o precedente de Trump não é Hitler ou Putin, mas antes Erdogan na Turquia e Chávez na Venezuela. Ambos eleitos democraticamente, ambos com capacidade de mobilizar massas, ambos querendo alterar as tradições dos seus países e começar um novo regime à sua figura – tal como Trump.

Mas a esquerda durante demasiado tempo admirou a pose de Erdogan contra os militares e os discursos populistas de Chávez. O comportamento grotesco de Trump provoca reações, mas é importante não perder o norte nos tempos conturbados que nos esperam. Trump é uma ameaça a todos os democratas defensores da liberdade, à esquerda ou à direita.

Professor de Economia na London School of Economics

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