Opinão

Tu também

(REUTERS/Pilar Olivares )
(REUTERS/Pilar Olivares )

É usado tanto nas conversas mais triviais: “o teu clube beneficiou-se de um penálti inexistente no último jogo”; “então e aquele penálti absurdo a favor do teu, duas jornadas antes?”.

Como nas mais graves: “vocês despejaram uma bomba no centro da cidade que matou milhares de inocentes”; “então e o ataque terrorista num autocarro cheio de mulheres e crianças que vocês fizeram na véspera?”.

Chama-se a este tipo de argumento tu quoque (tu também), segundo o jornalista, escritor, linguista e colunista brasileiro Sérgio Rodrigues. Além do latim, ainda há a versão em inglês, conhecida por “whataboutism”, a partir de “what about”, traduzível neste contexto por “então e”.

O “tu também”, que não explica nem esclarece apenas atira areia para os olhos dos adversários e nivela a discussão por baixo, é usado e abusado na política de todo o mundo. Na brasileira, que é a que aqui se trata, em particular. Foi nessa lógica que eleitores de PT, de centro-esquerda, e de PSDB, de centro-direita, as duas forças que controlaram o país de 1994 a 2013, discutiram ao longo de anos.

Na era da Operação Lava-Jato, o “tu também” apareceu ainda com mais força: “o político da tua preferência está preso”; “então e os da tua, que são todos investigados ou réus?”.

Mas o modelo de debate, ao contrário da Lava-Jato, que é recente, vem de longe, como a corrupção institucionalizada no Brasil, que é antiga.

No fundo, o mais infame dos slogans da política brasileira – o ‘ele rouba mas faz’ – apoia-se no “tu também”. Quando acusavam Adhemar de Barros, político paulista dos anos 50 do século passado, de ser ladrão, os seus acólitos replicavam que todos roubavam. Mas quando o primeiro expunha a sua obra, os segundos, que nem isso tinham, não podiam contrapor. O “rouba mas faz” foi o argumento pós “tu também”.

Mais ou menos como hoje em dia o PT de Lula da Silva, cujos principais dirigentes estão quase todos na cadeia. “Pois é, mas enquanto fizeram uns desvios de milhares de milhões, trabalharam como nunca antes na história do país pelos vulneráveis, pela redução da desigualdade e pelo combate à miséria”, mencionam os petistas.

Jair Bolsonaro candidatou-se, e acabou eleito, porque apresentava uma suposta rutura com a lógica do “tu também” na questão da corrupção, que o capitão reformado teve a habilidade de colocar como prioridade no debate eleitoral. Aí, ele, que nunca foi apanhado em escândalos da Petrobrás, ou outros, fugia, imponente, do “tu também”. “Ele não, ele nunca”, respondem ainda hoje os fanáticos bolsonaristas sempre que o tema é desvio de dinheiro público.

Mas, uma vez no poder, Bolsonaro dificilmente escapará dos pecadilhos e pecadões dos seus antecessores – nem, portanto, do “tu também”.

Começou, aliás, cedo. Prometeu 15 ministérios, um governo enxuto, barato, sem concessões ao clientelismo do passado. Já vai em 20 e ainda não terminaram os convites – “então e o do Temer, que tinha quase 30?”, reage o bolsonarismo.

Fala em mudar a embaixada em Israel para Jerusalém, no rastro da atual administração norte-americana, bate continência serviçal a um enviado de Trump e em visita oficial a Washington, um dos herdeiros de Bolsonaro deixa-se fotografar com um chapéu de campanha do presidente americano – “então e o PT, que se submetia à China?”, contrapõe o bolsonarismo.

Mais casos virão. Porque na política o “tu também”, “tu quoque” ou “whataboutism”, como lhe queiramos chamar, sempre vence.

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