Última hora

Por vezes um simples erro numa frase pode ter consequências terríveis para toda uma nação.

Uma notícia publicada esta semana com falta de cuidado colocou o país em alerta, obrigou o assunto a ser discutido na Assembleia da República e levou mesmo o Governo a reunir de urgência com todos os partidos.

A pressa é inimiga de quase tudo e pode ter consequências tremendas quando acontece num meio tão poderoso como é a televisão. Estamos na era do “já”, do imediato, sem tempo para esperar por quase nada. Queremos cada vez mais tudo para agora, numa voragem de consumo apenas do que é novo. É assim em todas as vertentes da vida, é assim ainda mais quando se trata de notícias. Entrámos numa espécie de vortex e no doce engano de que informação boa é aquela que nos chega primeiro, o mais rapidamente possível e da forma mais fácil de consumir. Esta tendência crescente obriga os jornalistas a correr cada vez mais rápido. Temos que ser capazes de saciar a fome dos leitores, espetadores ou ouvintes que já não aceitam esperar.

A moda das chamadas “Última Hora”, que aparecem a piscar nos jornais televisivos e sites, transformou-se em regra em vez de exceção. A ânsia é tanta que estes alertas, que deveriam surgir apenas quando há algo realmente novo e importante, acabaram por se banalizar nos rodapés noticiosos. Todos correm para serem os primeiros a dar a notícia, como se estivessem numa espécie de competição informativa. Mas não há medalha nenhuma para quem chega primeiro, pelo contrário pode levar a consequências terríveis.

Esta semana, uma dessas notícias colocada à pressa num rodapé televisivo e sem contexto acabou por lançar o pânico entre os depositantes do Banif e assustar uma nação inteira. A notícia começou por dizer que estava tudo preparado para o fecho do banco. A correção e o contexto chegaram de imediato mas já era tarde demais. Propagou-se em segundos como verdadeiro rastilho num sistema bancário altamente inflamável. Entrou de imediato na corrente noticiosa nacional e contaminou os mercados de forma imparável. As consequências estão à vista. As ações do banco caíram a pique e foram suspensas, os depositantes fizeram fila na porta das sucursais e o Primeiro-Ministro chamou os partidos para uma reunião de urgência. O assunto acabou mesmo por dominar o primeiro grande debate parlamentar da nação.

Este foi apenas mais um exemplo infeliz e não será seguramente o único nem o último. Veja-se também as manchetes desta semana sobre José Mourinho. No mesmo dia, quase todos os jornais tinham valores diferentes para noticiar a indemnização paga pela saída do treinador do Chelsea. Apesar disso, alguns avançaram com a notícia mesmo sem a confirmação do verdadeiro montante.

Este é um perigo real. Ou abrandamos rapidamente esta voragem de notícias dadas a correr, ou em breve deixamos de ter quem continue a acreditar naquilo que publicamos todos os dias.

Jornalista e pivô da RTP. Escreve todos os sábados

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