Um 25 de Abril e Novembro tardio, os 10% da democracia plena

Um pouco de história sob vários ângulos deve fazer perceber algo essencial a quem como eu, nasceu uma década depois do 25 de abril: celebra-se o dia pela conjugação de três coisas essenciais que aconteceram quase em simultâneo. Uma revolução social, cultural e mais de um ano depois, a normalização democrática em oposição às forças da extrema-esquerda.

O que ditou este rompimento com a ditadura do Estado Novo é conhecido. Por um lado, a mesma opressão e condicionalismos, que se viviam em Portugal, emulavam de outras ditaduras europeias, a que se acrescia as guerras coloniais datadas no tempo e que prometiam uma herança pesada. Mesmo para lá das vidas humanas. Um regime que durou 48 anos e nos tornou o país com a mais longa ditadura da Europa Ocidental. Já na década de 40 e 50, algumas personalidades tanto da esquerda como da direita produziam obra clandestina na forma de um Portugal livre e democrático. Raras vezes nos lembramos de como olhavam para outros países europeus e se apercebiam do atraso de décadas que levávamos.

Muitas destas condicionantes não se veem retratadas pelos nossos ilustres economistas-sociólogos, quase sempre neoliberais, na análise a alguns dos indicadores económicos que mais interessam e que influem em tudo o resto. Ora, ficar pelos das últimas décadas em democracia é bonito, mas para sermos mais sérios e construirmos o futuro, é preciso ir um bocadinho mais longe.

Não é de todo o meu intuito absolver erros políticos em democracia com este artigo, bem pelo contrário. Apenas, estabelecer um contraponto a uma espécie de agenda mediática que apesar de distinta na forma, talvez, sem grande noção, também gostasse de limpar demasiadas coisas num modelo que não foi assim tão horribilis nas últimas décadas.

Isto não vende, eu sei.

Comecemos pelo que considero mais relevante de um passado não tão longínquo e que mais interessa para este caso em concreto:

Entre 1940 e 50, Portugal levava um século de atraso em relação aos países do norte da Europa (!!) nos indicadores de educação que mais importam. Foi só nos anos 50, depois da II Guerra Mundial e com uma conjuntura global incrivelmente favorável que o Estado Novo finalmente começou a olhar para a educação. Fê-lo através de campanhas, políticas em prol do abandono escolar e o aumento da escolaridade obrigatória. Nada impediu de continuarmos em 74 com um atraso daqui à China em relação a muitos dos países aos quais nos comparamos (e bem!) hoje. Essencial, é perceber que a educação está umbilicalmente ligada a outros indicadores económicos, de produção das empresas, como a liberdade em todas as suas formas o está. Sem ela, muito do caminho trilhado na saúde com a criação do SNS e que hoje, mais do que nunca, deveria saltar aos olhos de todos, seria uma miragem! A realidade é que o nosso 25 de abril bem que podia ter sido em 64 ou 60. Isso é certo.

Passemos agora à atualidade que noutro tema específico também me parece ignorar (intencionalmente) o mais relevante e influi diretamente no ponto anterior:

Depois deste último ano e meio e mesmo antes, existirá algum país onde alguém ache que esteja a viver numa democracia plena? Até os 10% da sondagem do Expresso ficam difíceis de compreender, mas, se uma publicação como o The Economist explicou a queda de índices democráticos por parte de muitos países há mais de dois meses, exatamente pelas restrições impostas no último ano e tal, é mais do que expectável que quem as tenha sentido, o reflita na sua avaliação. Mesmo que necessárias, as restrições influíram nas liberdades de cada um e isso tem um preço. Por isso, não se entende o porquê de o jornal ter feito essa capa quando além de falhar em dois temas que ainda deveriam ser caros ao jornalismo, gerou toda uma discussão que me parece inócua sobre as dores democráticas da pátria.

O outro é o de trocar o mais relevante pelo mais sensacionalista e que também é o mais irrelevante desta sondagem. (Sim, os dois muitas vezes andam de mão dada...) O que interessava desta sondagem realizada já durante o novo abalo Sócrates e que pode ser visto de forma extraordinária no melhor ou pior dos sentidos, é o facto de mais de metade dos inquiridos ter considerado que o governo até está a realizar um bom trabalho. Bem ilustrativo que muitos separam as águas entre um ex-primeiro ministro corrupto e António Costa ou o próprio PS. E para lá do que provavelmente, demasiados gostariam.

Pela análise desta sondagem, pode-se concluir ainda que a gestão da pandemia por parte do governo é, até hoje e em certa medida, vista de forma positiva pelos inquiridos. Do fraco crescimento do Chega, pouca ou nenhuma enfatização por parte do jornal. Da queda do Ventura, ni hablar.

Depois de vários dias com tantos comentadores a perpetuar o crescimento meteórico do partido e da personagem após a decisão de Ivo Rosa, eis uma sondagem que indicia o oposto, mas que pouco parece interessar ao maior semanário nacional.

Um jornalismo pouco ou nada defeituoso, sensacionalista quanto baste, mas pleno, portanto.

Account director e BDM na Creative Minds

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