Um café e uma jangada, por favor

Agora que estamos prestes a ir de férias imaginemo-nos numa bela esplanada de praia, ao pôr do sol - com ou sem certificado covid, irrelevante para o caso. Na mão esquerda, geralmente a menos útil, mas que mais reivindica o imerecido descanso, talvez um precioso cubano, Cohiba, Partagas ou qualquer outro de top, desde que devidamente fabricado pela miséria que alimenta os nossos sonhos utópicos. Na direita, a que de facto trabalha e bem precisa de férias, pode ser um copo de vinho ibérico, Douro, Alentejo ou Rioja, tinto ou tinto, à escolha do freguês. Com isto e mais um petisco estão reunidas as condições para pensarmos em assuntos importantes. Por exemplo, o papel de Portugal no mundo. No fim, pedimos o café.

Somos o único país europeu de face virada para o Atlântico e costas voltadas para Espanha, mesmo após a desintegração do império, como bem nos recorda Jaime Nogueira Pinto, em Portugal: Ascensão e Queda. Praticamente reduzidos ao nosso pequeno retângulo, à beira-mar plantado, encontrámos solução na CEE, mais tarde, UE. Nada contra, pelo contrário, há sempre várias formas de matar um coelho e essa era uma delas. Unida, a Europa passava a ter uma dimensão económica semelhante aos EUA, além disso, estava num período ascendente e promissor. Valia a pena aproveitar a oportunidade. Contudo, a forma como o fizemos devia fazer-nos pensar. Recebemos uma loucura de fundos, aumentámos os níveis de educação e formação técnica ao ponto de termos a geração mais bem preparada de sempre, tivemos acesso privilegiado ao mercado europeu (quem não gosta de ter clientes ricos?) e tudo isto exponenciado pelo advento da era digital.

Como diria Luís Filipe Vieira, "o que passou-se"? Por que ainda vivemos neste marasmo? Que desculpa temos para o nosso insucesso? Em que buraco havemos de esconder a nossa vergonha sempre que somos ultrapassados por mais um país de leste? Tivemos o Estado Novo? Além de a economia não ser sequer o ponto fraco desse regime, essa justificação é ridícula, sobretudo quando nos comparamos a países outrora vetados à miséria comunista até aos anos 90.

A resposta a estas questões é sobejamente conhecida e pode resumir-se na famosa piada citada por William F. Buckley Jr. em Cruising Speed: A Documentary (1971): "O que aconteceria se os comunistas ocupassem o deserto do Saara? Nada, por 50 anos. Até que, por fim, haveria escassez de areia.".

É claro que, tecnicamente, Portugal não é considerado um país comunista, mas os seus vícios socialistas e estatistas, enraizados numa cultura de redistribuição da riqueza em troca de subserviência eleitoral, só podiam resultar num semelhante fenómeno de voracidade economicamente suicida. Com efeito, nem de 50 anos precisámos, apenas 25. Entrámos para a CEE em 1986 e em 2011 já cá estava a Troika. O social-portuguesismo tudo devorou, desde fundos a competências, talento, ambição, inteligência e criatividade; sendo as novas gerações as mais penalizadas, como bem testemunhou a convenientemente esquecida canção dos Deolinda, "Parva que sou".

Para compensar este fenómeno de autofagia, ineficiência e desperdício, procurámos aqui e ali novas oportunidades. Porém, nenhuma delas com dimensão capaz de corresponder às legítimas ambições da generalidade dos profissionais e empreendedores portugueses. Deu-nos a febre de Angola, que durou pouco tempo e só beneficiou alguns, pois se trata de uma economia pouco consistente, dependente do preço do petróleo e submetida a um regime ainda mais estatista que o nosso. Por outro lado, mesmo de costas voltadas, Espanha representa hoje 25% das nossas exportações e 33% das importações. Ora, basta fazer as contas para ver quem fica a ganhar.

Resta, então, a pergunta: Qual a solução? Dívida, dívida e mais dívida? Se empurrar com a barriga fosse um desporto olímpico os nossos governantes eram o Carlos Lopes.

No meio disto tudo não percebemos, entretanto, que o mundo mudou. Já não existem apenas blocos, mas uma confluência sofisticada entre o potencial de cada país, o bloco a que pertencem e o mundo global. Esta, aliás, é a raiz do Brexit. Independentemente de ter sido uma boa ou má decisão, este advém da necessidade que o Reino Unido sentiu de se reposicionar globalmente, reajustando a sua relação privilegiada com os EUA e a UE, ao mesmo tempo que procurando voltar a tirar partido do potencial comercial e financeiro que lhe provia o antigo império.

E nós, o que faremos? Vamos continuar a insistir no social-portuguesismo e subsidiodependência europeia, ou finalmente avaliar o posicionamento estratégico que devemos assumir neste momento de transição?

Não podemos limitar-nos a ser apenas mais um membro da UE (e logo dos mais pobres), mas olhar para o mundo como um todo e ver que fatores diferenciadores temos para oferecer. Nesse sentido, há coisas que herdamos do nosso antigo império, afinal de contas, não foram só os ingleses a ter um. A língua portuguesa é das mais faladas internacionalmente e ainda hoje, do ocidente ao oriente, existe uma diversidade de culturas lusófonas que partilham memórias, perspetivas e sentimentos - basta constatar a forma efusiva como o Presidente Marcelo é recebido em África para testemunhar este facto.

Por outro lado, também o nosso passado recente nos trouxe vantagens, pois nem todos os fundos europeus foram malgastos. Hoje temos uma geração de profissionais e empreendedores qualificados, competentes e com uma notável capacidade de adaptação, fruto de experiências internacionais que tiveram nas universidades e do talento inato que os portugueses têm para as línguas.

Resta, então, saber onde estão as oportunidades. O que é o mesmo que perguntar: Que zona do globo, além de poder ser favorável ao acolhimento de profissionais e empreendedores portugueses, está neste momento a crescer e tem efetiva dimensão?

Sem descurar as oportunidades que possam existir, tanto a oriente como em África, não vejo que estas sejam consistentes para a maioria de nós. Afinal de contas, o oriente já tem dono, a China, e África continua economicamente frágil. Por mais que Angola cresça - algo que não está a acontecer - não tem muito por onde, já que a sua produtividade é reduzida e débil. Não tem dimensão.

Em contraste, ao compararmos o PIB de Angola ($62 Biliões) com países promissores da América Latina, tais como o México ($1.076 Triliões) e Brasil ($1.445 Triliões), logo nos apercebemos da notória diferença entre apostas estratégicas sérias, consistentes, e meras táticas de improvisação ou modas pueris que apenas beneficiam meia dúzia (melhor que zero, bem sei, mas claramente insuficiente). Ainda mais esclarecedora, neste sentido, é a comparação inter se da generalidade dos países que foram colónias portuguesas. Pois, feitas as contas, o Brasil produz dez vezes mais que as restantes ex-colónias juntas.

Além do seu potencial de crescimento, a América Latina tem países com uma dimensão inquestionável no panorama global, e falam espanhol e português. E como cereja no topo do bolo, nutrem uma proximidade cada vez mais relevante com a maior economia do mundo, os EUA. Por outras palavras, recorrendo à imagem de um autor que não tenho por hábito elogiar, talvez esteja na hora de voltar a navegar e embarcar numa Jangada de Pedra apontada às Américas.

João A.B. da Silva, Economista. M&A Advisor at Nestle Health Sciences

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