Um caso de corrupção por dia

As vergonhas que o governo Jair Bolsonaro faz o Brasil passar não se resumem ao recente discurso do presidente na abertura da Assembleia Geral da ONU, onde recomendou ao mundo o uso de remédios indicados para gado no combate à pandemia.

Eis outro exemplo. Com ódio mortal aos pobres, como a generalidade da pirosa "elite" económica brasileira, o ministro da economia Paulo Guedes, disse o seguinte em fevereiro de 2020, a propósito de o dólar ter batido nos 5,5, quando nos governos do Partido dos Trabalhadores chegou a estar a menos de dois reais. "Antes [no tempo de Lula e Dilma, portanto] até a porteira já ia à Disneylândia, era uma festa danada, vão às praias do Nordeste, está cheio de praia bonita lá, vão a Cachoeiro do Itapemirim, ver onde o Roberto Carlos nasceu, façam turismo no Brasil, qual o problema de o dólar estar alto?".

Soube-se por estes dias, no contexto dos Pandora Papers, que para o ministro fã do regime de Augusto Pinochet o dólar a 5,5 não representa, de facto, problema absolutamente nenhum. Guedes, que em julho defendera o fim da taxação de rendimentos de paraísos fiscais, ganhou 14 milhões de reais com a valorização da moeda americana graças às contas offshore que mantém nas Ilhas Virgens Britânicas.

Ele e Roberto Campos Neto, o presidente do Banco Central que também foi apanhado nos Pandora Papers com contas em paraísos fiscais, são agora alvo de uma investigação preliminar da Procuradoria-Geral para apurar o óbvio: o conflito de interesses dos dois governantes que determinam a política monetária dentro do Brasil e lucram com ela fora do país.

Dois dias antes do escândalo em torno de Guedes, reportagem da revista Crusoé apurou que Michelle Bolsonaro pediu ao presidente da estatal Caixa Económica Federal para incluir num programa emergencial de subsídios uma florista, uma confeiteira, uma cabeleireira e um promotor de eventos amigos. "É o famoso QI, o "quem indica", né? Com a ajuda da primeira-dama, só precisei de ir uma vez à Caixa pedir o empréstimo", confessou à revista o cabeleireiro Waldemar Caetano.

Sabe-se, por outro lado, desde agosto que a ex-mulher de Bolsonaro e mãe do quarto filho do presidente vive numa casa em Brasília incompatível com os rendimentos dela. Ana Cristina Valle será, entretanto, ouvida na Comissão Parlamentar de Inquérito que apura os crimes do governo na pandemia por ter ajudado um lobista num plano de aquisição, repleto de indícios de corrupção, de vacinas contra a covid-19.

Ela teve, num caso paralelo, o sigilo bancário quebrado por estar envolvida no desvio de salários de assessores - um esquema milionário que serviu para multiplicar o património imobiliário da família presidencial, cujos líderes são, segundo as autoridades, o senador Flávio e o vereador Carlos, filhos mais velhos de Bolsonaro, e o principal operacional é Fabrício Queiroz, o mesmo que fez 28 depósitos até hoje por explicar nas contas de Michelle.

No governo, Marcelo Álvaro Antonio, titular do Turismo, só saiu pelo próprio pé já depois de ser arguido num esquema de lançamento de candidatas fantasmas na eleição de 2018.

O ex-ministro Ricardo Salles, do Ambiente, que assumiu o cargo mesmo após ser condenado, enquanto secretário da pasta no governo de São Paulo, de fraude... ambiental, só caiu na sequência de uma investigação a propósito de exportação ilegal de madeira.

Osmar Terra, titular da Cidadania, foi tornado arguido por improbidade administrativa ao suspender a autorização de produções audiovisuais LGBT para a televisão pública, já depois de ter gasto 400 mil euros no processo de seleção.

O ministro Onyx Lorenzoni, da Casa Civil, confessou ter recebido dinheiro não declarado para as suas campanhas.

O líder parlamentar do governo no Senado, Fernando Bezerra, foi alvo de mandado de busca e apreensão por receber subornos em obras no nordeste do país.

Outro senador bolsonarista, Chico Rodrigues, foi apanhado com dinheiro escondido na cueca em operação da polícia a propósito de desvio de dinheiro no combate à pandemia.

Ah, voltando ao discurso vergonhoso na ONU, Bolsonaro gabou-se, sem ruborizar nem se rir, de presidir a um governo há quase 1000 dias sem casos de corrupção.

Jornalista, em São Paulo

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de