Um depósito por 80 euros. Faça as contas às empresas

Politicamente incorreto que seja, eu, como a esmagadora maioria do país, guio um carro com motor de combustão. Não é porque desconfie da capacidade e autonomia dos motores elétricos ou porque me atenha na deficiente rede de carregamentos que, por exemplo, obriga os governantes - que até têm ao dispor uma frota elétrica - a optar pelos carros de motor tradicional sempre que têm viagens pela frente. Mas desconfio, sim. Nem sequer é porque todos os estudos apontam para a maior eficiência energética e mais reduzidas emissões de um motor a combustão vs. um carro elétrico em ciclo completo de vida - ou pelo problema que temo que estejamos a agigantar com a profusão de baterias que, mesmo com vida prolongada em novas utilizações, estão condenadas a ficar rapidamente obsoletas e a ser provavelmente abandonadas num aterro bem longe dos nossos olhos, como é costume (lá para África, onde ninguém se importa com o que se passa, mesmo que o que lá aconteça afete o mundo inteiro).

O carro que guio é de baixa cilindrada e o depósito leva uns míseros 40 litros de gasolina. Enchê-lo custou, há três dias, quase 80 euros. Um absurdo que se torna uma impossibilidade para uma imensa fatia de famílias portuguesas - daquelas que vivem no mundo real, onde a bicicleta proposta pelo PAN como alternativa ao trajeto rodoviário Sintra-Lisboa não é uma possibilidade, porque têm de fazer o IC19 todas as manhãs para ir trabalhar, depois de deixar as crianças na escola e empacotar os almoços e os lanches e só regressam a casa já de noite. Uma impossibilidade que se torna uma barreira intransponível para quem tem de garantir que os seus produtos e mercadorias chegam aos mercados a preços comportáveis para não ser comido pela concorrência, que não paga a carga fiscal a que aqui estamos sujeitos nem está obrigada às mesmas regras.

Com combustíveis e preços da energia em máximos históricos e com tendência a aumentar mais, fazendo explodir custos de contexto, o governo tomou enfim a decisão de cortar nos impostos que colhe sobre esse fator de competitividade fundamental. Ah, não... afinal fez o costume: aprovou regras que lhe permitem meter a mão à frente das empresas que vendem combustíveis e esmagar-lhes as margens sem prescindir de um só cêntimo da sua receita fiscal, a maior carga de impostos da Europa. E para quem não consegue pagar a luz, cria-se mais um subsídio - que se lixem as empresas, a indústria, a produção nacional.

Com jeitinho, ainda vamos ouvir elogios a estas medidas pelo que fazem pelo ambiente. Esquecem-se que quando não há emprego, comida no prato e crescimento económico, o ambiente torna-se supérfluo.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de