Opinião: Alberto Castro

Um Homem bom, um exemplo

Paulo Nunes de Almeida. Fotografia: Direitos reservados
Paulo Nunes de Almeida. Fotografia: Direitos reservados

O Paulo criou em nós a expectativa de que conseguiria superar o martírio. Perdeu essa guerra. Compete-nos manter vivo o seu exemplo e a sua memória

O dia estava perfeito: temperatura amena, céu limpo, mar azul. Eu, e um amigo comum, vimos o Paulo a caminhar na marginal de Leça. Fomos ter com ele. Convidou-nos a acompanhá-lo. Falámos de tudo e nada: da economia, do tempo, do FCP (sempre!). O passeio foi curto. Ao despedirmo-nos fiquei com a sensação de que se despedia, sobretudo, daquela paisagem com aquele sorriso, triste mas tranquilo, que o acompanhava nos últimos tempos. Dias antes, fizera questão de se despedir de todos, muitos e representativos, os que acorreram ao jantar dos 170 anos da Associação Empresarial de Portugal (AEP) no qual fez um balanço exaustivo do seu mandato. Em conjunto com José António Barros, conseguiu reestruturar a AEP, mantendo-a entre os protagonistas do associativismo empresarial português. Esse empenhamento, com raízes no têxtil e vestuário, foi, justamente, reconhecido pelo Presidente da República com a atribuição da Grã-Cruz da Ordem do Mérito Empresarial (comentámos que foi a única vez que o vi feliz com uma faixa vermelha…). A sua capacidade de diálogo, de estabelecer pontes, de criar espaço para a colaboração tinha-lhe merecido, igualmente, a medalha de ouro da Associação Comercial do Porto. Agraciamentos que honraram não apenas quem as recebeu mas também quem teve a presciência de lhas atribuir, ainda em vida.

Por isso me senti honrado quando a direção do Dinheiro Vivo me convidou para alternar com o Paulo nestes escritos quinzenais. O seu olhar que, mesmo no meio das dificuldades, conseguia descortinar razão para o otimismo, vai fazer falta.

Paulo Nunes de Almeida foi, e será, um exemplo também pela forma determinada e tranquila como enfrentou a doença que o havia de consumir, nunca deixando transparecer qualquer azedume. Ocasionalmente, falávamos com a cumplicidade de quem tinha passado por algo semelhante. Porém, o Paulo superava tudo o que se poderia esperar, criando em nós a expectativa, que sabíamos ilusória, de que conseguiria superar o martírio. Perdeu essa guerra. Compete-nos manter vivo o seu exemplo e a sua memória!

 

Alberto Castro, economista e professor universitário

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