Opinião

Um otimismo cuidadoso

Afonso Azevedo Neves
Afonso Azevedo Neves

Após 45 dias de estado de emergência e a caminho dos 60 dias em que Portugal e os portugueses mudaram radicalmente a sua forma de viver, chegou o momento para fazer um balanço e contrapor algum otimismo à visão catastrofista mais dominante, procurar algum equilíbrio e razões para olhar o futuro com maior confiança.

O que esperar nos próximos tempos? O que aprendemos nestes meses de confinamento que nos sirva para o que resta do ano de 2020?

Em primeiro lugar, as lideranças foram testadas e percebemos o valor de quem comunicou de forma clara dentro ou para fora da empresa, quem manteve a calma, demonstrou empatia e foi capaz de se focar numa nova cultura empresarial. Curiosamente foi a necessidade de distanciamento que aproximou ainda mais os trabalhadores de muitas empresas; reuniões semanais de horas transformaram-se em reuniões relâmpago diárias, desburocratizaram-se processos internos, aceleraram-se processos de decisão e ficou evidente quem é capaz de assumir maiores responsabilidades e agir com maior autonomia.

A comunicação entre trabalhadores tornou-se mais colaborativa, talvez motivada pela ideia de termos um adversário comum. A produtividade aumentou à medida que os tempos de decisão tiveram de acelerar e a transformação digital deixou de ser “aquele” tema obrigatório em centenas de conferências e passou a ser factual. A comunicação digital ajudou a acentuar o cariz social do trabalho, o valor de quem trabalha connosco, da palavra “colaborador”.

As lideranças das empresas também terão percebido a importância de que a comunicação tem de ser doseada e respeitar o espaço familiar. Quem teve confinado em casa com crianças em idade escolar sabe bem a que me refiro. O tempo de trabalho deve de ser elástico e adaptar-se às necessidades familiares e não o inverso, porque a capacidade de resposta aos desafios de uma empresa está hoje dependente de um equilíbrio entre essas duas realidades.

Muitos gestores perceberam como alguns colaboradores são muito mais eficazes em condições de trabalho até agora menosprezadas, levando a uma maior flexibilização e a aceleração de sistemas e opções tecnológicas que permitam uma maior mobilidade e aumentem a rapidez e eficácia da comunicação de objetivos. O trabalho remoto deixará de ser uma escolha secundária ao mesmo tempo que a presença física no escritório será mais valorizada e motivo de maiores cuidados. Mais do que nunca apreciamos o valor de estarmos juntos e de podermos comunicar pessoalmente.

O distanciamento forçou a inovação nos processos de comunicação internos mas também externos das empresas. Muitos negócios mais tradicionais foram forçados a uma adaptação tão rápida e radical que na prática todos adotaram uma cultura de startup, com resultados muito positivos. A comunicação com o mercado tornou-se mais colaborativa, mais imediata, bidirecional, privilegiando a adaptabilidade do negócio às necessidades de cada um dos clientes. Mais do que nunca é feita por pessoas e para pessoas.

Depois de 45 dias de estado de emergência, caminhamos para dias de liberdade e Portugal e os portugueses devem fazer um balanço e projetar para um futuro diferente mas que pode ser mais risonho do que inicialmente pensámos.

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