Opinião: Carlos Brito

Um país fortemente inovador

Fotografia: Leonardo Negrão/Global Imagens
Fotografia: Leonardo Negrão/Global Imagens

Devemos olhar para esta informação, encará-la como um desafio e perguntar: que oportunidades temos que ainda não estejam a ser devidamente exploradas?

Sabe qual é a única economia do sul da Europa fortemente inovadora? E sabe qual é o país que, no contexto dos 27 Estados-membros da União Europeia, é líder no que diz respeito à inovação realizada pelas suas PME? Talvez se admire, caro leitor, mas estou a falar de Portugal.

Vamos por partes. A União Europeia tem vindo a realizar uma aposta muito significativa na inovação. É nesse contexto que divulga anualmente os resultados do European Innovation Scoreboard, tendo os dados referentes a 2020 sido publicados há pouco mais de duas semanas. E, pela primeira vez, a economia portuguesa surge classificada como fortemente inovadora, à frente de muitos outros países como Espanha e Itália considerados moderadamente inovadores.

Este ranking é feito com base num conjunto de indicadores agrupados em quatro categorias: as condições estruturais (como, por exemplo, a disponibilidade de talento), o investimento realizado, nomeadamente em I&D, as atividades de inovação, tais como registo de patentes, e o impacto da inovação, designadamente ao nível das exportações.

Em geral, o nosso posicionamento é melhor nas duas primeiras categorias, sendo relativamente pior no que se refere à transferência de tecnologia e à concretização da inovação em negócios competitivos. Contudo, isto não obsta que, para admiração de muitos, os dados referentes a 2020 revelem que somos líderes europeus no que respeita à inovação realizada por PME, tanto ao nível de produtos e serviços como no que respeita a processos.

Sei que temos de relativizar a importância dos rankings – porque não só nos dão fotografias parcelares da realidade como também porque dependem das próprias metodologias adotadas. Mas a verdade é que estamos a falar de um scoreboard reputado para o qual muitos gestores e políticos olham.

O propósito deste artigo não é massajar o ego dos portugueses, já que a performance em termos de combate à pandemia não parece ser famosa. E também não pretendo que fiquemos a pensar “afinal somos os maiores”, uma atitude tão típica dos portugueses quando as coisas correm bem ou, pelo menos, não correm mal!

O que devemos é olhar para esta informação, encará-la como um desafio e perguntar: que oportunidades temos que ainda não estejam a ser devidamente exploradas? E o que devemos corrigir ou melhorar para que a competitividade da nossa economia assente na inovação e não em baixos custos?

Porque, nunca é demais relembrar, o único recurso que verdadeiramente temos ao nosso dispor com relativa abundância é o trabalho – o que quer dizer que falar em baixos custos em Portugal implica, na maioria dos casos, baixos salários. E como não quero viver num país onde as pessoas ganham pouco, recomendo a muitos empresários e sindicalistas que leiam o European Innovation Scoreboard como deve ser.

 

Carlos Brito, vice-reitor da Universidade Portucalense

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