Um país que vive de raspadinhas

Em recentes declarações públicas, Francisco Assis, presidente do Conselho Económico e Social (CES), afirmou que a lotaria instantânea, vulgarmente conhecida por raspadinha, é geradora de graves problemas sociais. Desde logo porque somos o país da União Europeia que mais gasta nesse tipo de jogos; depois, porque é viciante uma vez que é rápida, é barata, é fácil de comprar e não é necessário entender o jogo; e, em terceiro lugar, porque leva à destruição de indivíduos e famílias, tanto mais que são as pessoas de menor rendimento as mais viciadas.

Uma vez que o Orçamento do Estado para 2021 prevê a criação de uma nova lotaria instantânea, Francisco Assis pede ao Governo que protele o seu lançamento, pelo menos até que haja estudos mais profundos sobre a matéria, designadamente aquele que o CES vai promover.

Concordo com tudo isto, mas o problema é bem mais grave. É que não são só as pessoas que são viciadas em raspadinhas, é toda uma Nação que, nos últimos 500 anos, tem evidenciado uma forte adicção neste domínio.

A primeira grande raspadinha chamou-se Índia e Oriente. O nosso "azar" é que, tendo sido premiados sob a forma de especiarias, se instalou o vício a partir daí: o vício de pensar que a maneira mais fácil de enriquecer é encontrar riquezas já prontas a consumir e não a de sermos nós a trabalhar para as produzir. Uma atitude coletiva que tem levado não só a um atraso do país mas também a um endividamento crónico que, em fases mais agudas, gera situações de bancarrota que exigem medidas drásticas impostas pelos credores externos.

Mais tarde a raspadinha chamou-se Brasil e o prémio veio sob a forma de ouro, para além de outros prémios menores. E por aí fora, até chegarmos à atual série da raspadinha chamada União Europeia com prémios periódicos sob a forma de fundos estruturais que, no total, já renderam 140 mil milhões de euros ao país. E apesar de toda esta ajuda, nos últimos 20 anos temos vindo a divergir em relação aos nossos parceiros europeus em termos de competitividade, crescimento económico e PIB per capita. O que fez com que fossemos, por exemplo, ultrapassados por vários países de Leste, apesar de terem recebido muito menos apoio.

A mais recente edição da raspadinha europeia foi rapidamente batizada de "bazuca" - e só o nome já diz tudo em relação à forma como a encaramos. Tudo isto para quê? Para alimentar o vício, porque é rápida, é barata, é fácil de comprar e não é necessário entender o jogo. Só que, tal como acontece com qualquer outro viciado, estas raspadinhas só servem para criar dependência e levar ao empobrecimento.

Chego a pensar se não seria bom que na União Europeia alguém nos dissesse: "Esqueçam a bazuca. Em vez disso vão planear, organizar, trabalhar e controlar (bem!) e vão ver que daqui por 10 anos serão muito mais ricos do que se receberem agora os 14 mil milhões de euros de uma bazuca que só vai servir para alimentar o vosso vício".

Carlos Brito, vice-reitor da Universidade Portucalense

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