Um pequeno contributo para gerir o combate à pandemia

Em março do ano passado, duas semanas após o início do confinamento, escrevi neste mesmo espaço: "No contexto atual ter visão significa capacidade de antecipação de cenários a dois ou três dias. Quarenta e oito horas podem fazer toda a diferença em termos de propagação do vírus". E no mesmo artigo acrescentei: "Visão significa não apenas capacidade de antecipação mas também de atuação. O que exige liderança, iniciativa, planeamento, organização e um controlo rigoroso e permanente".

Nenhuma destas afirmações resultou de um pensamento visionário ou de um momento de particular inspiração. Limitei-me a estar atento àquilo que ia surgindo nos múltiplos relatórios que começaram a ser publicados nessa altura, muitos deles de reputadas empresas de consultoria. Estava e está tudo na internet, disponível para quem quiser ler.

Entretanto, 10 meses passaram. O espaço que tenho não me permite fazer uma resenha do que de bom e de mau Portugal fez. Mas sabemos onde chegámos: no combate à crise sanitária, somos atualmente o pior país do mundo em termos de número de novos casos e de óbitos por milhão de habitantes.

Não erro muito se resumir em três "i" as principais causas:

- incompetência do Governo, que não soube interpretar a tempo e horas as informações disponíveis - a começar nos alertas de médicos e outros especialistas nacionais e a acabar nos sinais vindos de fora quando vários países europeus adotaram, logo no início de dezembro, medidas bem mais restritivas do que nós, apesar de se encontrarem em melhor situação;

- irresponsabilidade da generalidade dos partidos políticos, que deram o aval ao Governo no desgoverno que foi o fatídico mês de dezembro, em especial o período do Natal e Ano Novo;

- inconsciência de uma parte da população, que só demasiado tarde entendeu a necessidade de cumprir as regras sanitárias - e, mesmo assim, quantos inconscientes e negacionistas andarão ainda por aí a passear-se?

Mas o que importa agora é o futuro e não o passado (haverá certamente tempo para o julgar). O que fazer? Sobre isto volto a repetir o que disse há 10 meses.

Em primeiro lugar, é necessário analisar rápido, decidir rápido e atuar rápido. Ainda há pouco tempo, quem nos governa analisava numa semana, decidia na seguinte e demorava mais uma semana a atuar. Tudo isto a par de uma questão que, infelizmente, se veio a tornar irrelevante: dar prioridade à saúde ou à economia? Sabe-se que, após um certo nível de propagação da doença, essa opção já não existe. O que significa que a atuação tardia não só prejudicou a saúde mas também a economia.

Em segundo lugar, é imperioso que se adote uma gestão de cenários. Com fatores que nem sempre são fáceis de prever (por exemplo, o surgimento de uma nova estirpe mais letal, atrasos imprevistos na entrega das vacinas ou convulsões sociais) há que criar diferentes cenários. Isto é, ter um plano B e, se necessário, um plano C e um plano D que, não sendo meras variações do plano A, tenham por objetivo dar resposta a verdadeiros contextos alternativos.

Aquilo que se deve fazer não é tentar prever o futuro, mas antecipar possíveis situações e desenvolver planos de contingência para cada um deles. Nada disto o Governo foi capaz de fazer. Dizer que foi apanhado desprevenido pela segunda vaga (e agora pela terceira) e que não contava com a velocidade de propagação do vírus inglês só revela incapacidade para estar à altura da situação. Porque o importante não é prever, uma vez que ninguém consegue prever nada nesta altura de incerteza. O importante é antecipar situações possíveis, mesmo que pouco prováveis - e ter planos para agir em conformidade.

Sei que é muitíssimo mais fácil eu estar calmamente a escrever esta crónica do que cumprir a tarefa hercúlea que os responsáveis do nosso País têm pela frente. Mas também sei que o que acabei de escrever não tem nada de extraordinário, pois volto a repetir: tudo isto já se sabia há 10 meses. E também devo realçar que o que afirmei não se aplica só ao Governo. Aplica-se também às empresas, às escolas, aos hospitais, enfim, a todas as organizações, assim como às próprias famílias e pessoas. Todos temos de pensar rápido, atuar rápido e jogar por antecipação com planos alternativos. Só assim poderemos vencer o vírus. Doutra forma, será ele que nos irá vencer.

Carlos Brito, vice-reitor da Universidade Portucalense

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