Opinião

Um plano em cima do joelho. Portugal merece melhor

Indústria do calçado. 
Fotografia: Miguel Pereira/Global Imagens
Indústria do calçado. Fotografia: Miguel Pereira/Global Imagens

Portugal é um país economicamente diversificado quer em termos industriais, quer em termos de serviços quer mesmo em termos agrícolas. Cada setor tem as suas necessidades específicas, alguns poderão estar condenados a um declínio prolongado (o turismo?) outros a um renascimento noutros moldes (banca?) outros ainda a uma recuperação rápida (agroalimentar e vestuário?). Múltiplos interesses conflituam numa teia complexa. As empresas de construção civil anseiam por grandes obras públicas, os trabalhadores qualificados por investimento em novas tecnologias, os jovens pelo reforço da investigação e do ensino, os mais velhos pelo fortalecimento do sistema de saúde. É, no equilíbrio entre estes interesses contraditórios que a sociedade se constrói. Os militares reclamam melhor equipamento, os operários melhores salários e mais formação profissional.

Qualquer plano de relançamento económico deve ter em conta estes múltiplos interesses e a forma como se interligam. Um plano de relançamento económico deve ter em conta os diversos cenários de evolução da globalização e as oportunidades e perigos que cada cenário comporta. Um plano de relançamento é complexo e não está ao alcance de qualquer cérebro individual por mais brilhante que seja.

Um plano que se anuncia desenhado num fim-de-semana por uma única pessoa só pode conduzir a um grande desastre económico e social e à chacota internacional. Um plano delineado em cima do joelho, por mais esplendoroso que seja esse joelho, só pode contribuir para a ruína nacional. Já aconteceu no passado, com salvadores da pátria endeusados que nos colocaram perto na cauda da europa. Bater com a cabeça duas vezes na mesma parede não é sinal de inteligência.

Ouvir as universidades, escutar os parceiros sociais, auscultar os grandes empresários, os cientistas, os sindicalistas, as diferentes comunidades, as regiões, atentar no que dizem os militares, levantar os estudos feitos nos outros países, desenhar cenários de futuro, permite então definir como Portugal se quer posicionar no mundo que nos espera e desenhar as estratégias que nos coloquem onde queremos estar. Nada disso está ao alcance de um único individuo. No mundo civilizado nada disso é confiado a um único indivíduo.

O que precisamos é de uma metodologia que permita desenhar em tempo um plano coerente e eficaz. Há muita reflexão já feita, muito conhecimento disseminado. Há que criar uma equipa central, recolher contributos alargados, lançar um debate nacional e depois decidir.

Recentemente o Professor Bruno Cardoso Reis lançou um ensaio publicado pela Fundação Francisco Manuel dos SANTOS sobre a necessidade de Portugal ter uma estratégia própria e sobre a forma de a desenhar. São ideias válidas que podem ser aproveitadas. Existem observatórios como o Obegef ou associações como a APP (Associação Portuguesa de Prospetiva) que devem ser chamados a participar. Existem universidades, existem centros de estudos, existem múltiplas associações empresariais, sindicais, profissionais que devem ser chamadas a participar.

Portugal habitou-se durante muitos anos a ir a reboque da União Europeia e da Nato. Hoje essa metodologia não serve. Precisamos de pensar pela nossa própria cabeça. Não temos as instituições e a experiência para o fazer. O pior que podemos fazer é adjudicar essa tarefa a uma única pessoa.

Mais vale demorar um pouco mais a desenhar uma estratégia equilibrada, exequível e acertada do que ser rápido a por no terreno a resposta errada. Independentemente de se avançar medidas de caráter conjuntural de apoio às empresas e aos cidadãos em dificuldades.

Portugal merece melhor.

* Jorge Fonseca de Almeida, economista, MBA

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