Um voto pela culatra

Em 2018, os brasileiros votaram em Jair Bolsonaro, um mau militar, segundo avaliação do general e antigo presidente da República, Ernesto Geisel, um ex-deputado preguiçoso, como a aprovação de meros dois projetos-lei em quase 30 anos de atividade deixa evidente, e um cidadão de pensamento medieval, conforme atestam os elogios públicos a torturadores e as frases de ódio contra minorias, por exemplo.

A alternativa era Fernando Haddad, um bacharel em direito, mestre em economia e doutor em filosofia pela melhor universidade da América Latina, ex-ministro da Educação, por oito anos, e com a experiência executiva de ter sido prefeito da megalópole São Paulo, por quatro.

Além dos que votaram sem hesitação, por partilharem as ideias obscurantistas do vencedor e não no vencido, houve outros, talvez a maioria, que justificaram a preferência pela teoria do mal menor. Afinal, defendiam, o Partido dos Trabalhadores (PT), de Haddad, fora o grande responsável pelo Petrolão - isto apesar de o mega-escândalo de corrupção investigado pela Operação Lava-Jato ter salpicado três dezenas de partidos, o mais atingido dos quais, por acaso, o Partido Progressista, onde militava, à época dos factos, Bolsonaro.

E do ponto de vista económico, que é aquele que se trata preferencialmente neste jornal, argumentavam que, mesmo tendo em conta que o Brasil experimentara um período de inegável crescimento, valorização da moeda e diminuição da desigualdade nos governos do PT, uma vitória de Haddad seria um suicídio.

Por comportar risco de dólar nos píncaros, de políticas assistencialistas com fito eleitoral, de furo ao teto dos gastos orçamental, de manobras orçamentais perigosas, de corrupção, de alianças com o "Centrão", o grupo de partidos que parasita o Estado em troca de votos a favor do governo de plantão, e de Sergio Moro, a cara da Lava-Jato, acabar desmoralizado.

Pois bem, três anos após votarem em Bolsonaro, o resultado é o dólar nos píncaros - está ao dobro dos tempos de Dilma Rousseff -, políticas assistencialistas com fito eleitoral - o Auxílio Brasil, programa feito em cima do joelho para entrar em vigor em 2022, ano de sufrágio -, um combinado explosivo de furo ao teto dos gastos orçamental, de corrupção e de alianças com o Centrão - cujos deputados foram pagos a peso de ouro para blindar eventual impeachment - e Moro apequenado e atacado por Bolsonaro.

Tudo isso somado à pior condução da pandemia do mundo ocidental - que pode levar o presidente a responder em Haia por crimes contra a humanidade - e ao estatuto de pária internacional - sublinhado em intervenções e participações tragicómicas mundo afora.

O tiro saiu pela culatra e atingiu em cheio o pé dos eleitores de Bolsonaro. Que sirva, pelo menos, de lição.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de