Uma ambição digital para a agricultura portuguesa

A primeira transformação digital de Portugal ocorreu após a integração na União Europeia, o aparecimento de computadores pessoais e o acesso à Internet. O Sistema Nacional de Informação Geográfica (SNIG), em que participei, foi um desses projectos transformadores.

O impacto na formação de competências, e o auxílio na tomada de decisões a níveis central, regional e local de projectos como o SNIG foram inegáveis. Mas as lições aprendidas são particularmente relevantes para esta nova era de transformação digital, nomeadamente para a agricultura Portuguesa.

Neste caso, a transformação digital será iniciada pelos agricultores individuais e não por organismos centrais como no passado. Mas a Confederação de Agricultores de Portugal (CAP) pode seguramente auxiliar os seus filiados disponibilizando conhecimento. Pode também criar iniciativas congregadoras que permitam uma aprendizagem colectiva e a criação de novas áreas de actividade.

Esta nova transformação digital tem duas componentes inovadoras: a agricultura de precisão que se torna possível pela crescente acessibilidade de soluções de "hardware" (sensores, "robots") e "software"; e a digitalização das cadeias de abastecimento e distribuição, "marketing" e vendas.

A aposta em soluções inovadoras, num quadro de risco controlável, uma lição do SNIG, pode ser determinante. Esta é uma década em que vamos passar de uma Internet que é ainda acedida através de ecrãs bi-dimensionais, para outra que será visualizada tri-dimensionalmente no Mundo Real utilizando óculos de realidade aumentada. Nesta nova Internet vamos poder conjugar a inteligência humana com a das máquinas que nos ajudarão a descobrir conhecimento nos dados que elas próprias recolhem.

Estas são soluções que poderão ser adoptadas pelos agricultores individualmente. Mas se operarmos estrategicamente poderemos criar infra-estruturas de dados, que preservando a sua propriedade e privacidade, permitam aprendizagens colectivas. Poderemos também pensar na criação de novas indústrias nacionais de instrumentos físicos e ferramentas digitais que sirvam a agricultura Portuguesa e possam ser exportáveis globalmente.

Esta nova ambição da Agricultura Portuguesa, que a CAP está a estimular, servirá assim, em primeiro lugar, os agricultores seus filiados. Mas poderá ter também um impacto decisivo na criação de novas industrias tão necessárias nesta fase crítica do País.

Antonio Câmara, Professor na Universidade Nova de Lisboa

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