Uma "crise dos camionistas" em plena recuperação da economia

O Mercado Interno é fundamental para a economia europeia. E para que este funcione, temos de assegurar a livre-circulação de bens. A falta de motoristas é um problema presente na União Europeia, e não apenas no Reino Unido, que tem centrado a cobertura mediática a este respeito. Por toda a Europa, os consumidores começam a aperceber-se da escassez e das mais frequentes ruturas de stock de alguns produtos.

São ainda pequenos sinais, como aquele cortinado da nova coleção que está sempre esgotado na loja de bricolage, ou o equipamento eletrónico que se encomendou online e está a demorar mais do que o habitual a chegar. O problema é que, segundo os especialistas do setor, a tendência é para que esta situação se agrave, com as consequências a tornarem-se mais evidentes na altura do Natal.

De acordo com um relatório do grupo de estudos Transport Intelligence, citado há dias pelo Financial Times, estima-se que faltem atualmente na Europa mais de 400 mil motoristas. Destes, cerca de 60 a 76 mil dizem respeito ao Reino Unido. Mas na União Europeia há uma situação bem pior, a da Polónia, onde este número se eleva quase aos 140 mil, sendo que também a Alemanha conta com um défice de 45 a 60 mil motoristas e a França de 43 mil. Portugal não consta deste levantamento, o que está longe de significar que não seja direta ou indiretamente afetado.

Esta já chamada "crise dos camionistas" é muito preocupante, numa altura em que a União Europeia pretende - e existem indicadores de que o está a conseguir - recuperar rapidamente as suas economias das consequências da pandemia de COVID-19. Precisamos de um Mercado Interno cada vez mais forte, e sem novos impedimentos ao seu desenvolvimento, numa altura em que já procuramos lidar com outros desafios, como a escassez de microprocessadores muito importantes para vários setores da indústria.

Como membro da comissão do Mercado Interno e da Proteção dos Consumidores (IMCO) e pertencendo à direção do Intergrupo da Indústria, no Parlamento Europeu, estarei muito atenta ao desenrolar desta situação no futuro próximo.

Em 2022, entram em vigor diversas normas do novo Pacote Europeu de Mobilidade, aprovado no ano passado e acompanhado pela Comissão dos Transportes e do Turismo, à qual pertence a minha colega Cláudia Monteiro de Aguiar. Entre as novas regras, está previsto que os motoristas que prestam serviço nos estados-membros passem a dispor de condições (em aspetos como as remunerações e o tempo de descanso) bastante mais favoráveis do que as atuais. Há quem receie que isso possa trazer novos problemas ao setor. Pessoalmente, e sendo a escassez de mão-de-obra o principal problema, o qual de resto já se fazia sentir antes da pandemia, não vejo como uma melhoria das condições de trabalho possa ser negativa.

Em todo o caso, é preciso olhar para o conjunto de causas e para as suas possíveis soluções. Entre as primeiras conta-se um aumento das encomendas online durante o período da pandemia, uma tendência que, tudo o indica, terá vindo para ficar e que não é em si mesma negativa, embora exija um esforço de adequação.

Depois há aspetos que dificilmente serão ultrapassados apenas com as medidas previstas no Pacote de Mobilidade, tais como a baixa atratividade desta profissão para os jovens e, sobretudo, para as mulheres, que representam uma ínfima percentagem dos profissionais do setor.

Outras causas invocadas para a falta de mão-de-obra são os altos de custos económicos de entrada na profissão e as condições laborais, nomeadamente a falta de parqueamentos para camiões e problemas de insegurança nesses mesmos locais, com frequentes episódios de violência contra os motoristas.

Finalmente, até porque assumimos compromissos determinantes em matéria de combate às alterações climáticas, precisamos de olhar para critérios de eficiência e de sustentabilidade ambiental. Por exemplo, apostando em soluções tecnológicas que permitam uma melhor gestão das frotas e dos profissionais, reduzindo o numero de camiões a circular apenas com uma parcela da carga permitida. Mas também incentivando o consumo de produtos produzidos localmente, libertando meios e reduzindo a pegada ambiental deste setor.

Maria da Graça Carvalho, eurodeputada do PSD

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