Uma crónica para uma amiga

Tenho uma amiga que está doente. Esta minha amiga fala da doença sem mágoa ou raiva, sem pedir contas à vida ou a Deus, e lida com o sofrimento que a doença lhe traz da mesma maneira. Ao pé dela, parecemos baratas tontas - ficamos desajeitados -, não estamos habituados a ver alguém a encarar o sofrimento enquanto ele acontece sem o desafiar ou sem esmorecer. A minha amiga não faz uma coisa nem outra: ela apenas o aceita na esperança e com a certeza de que vai acabar. Desassossega-nos tanta serenidade. Porque aquilo a estamos habituados a fazer, aquilo para que foi treinado o nosso espírito de missão, o nosso coração, foi para ouvir compreensíveis pedidos de socorro, de choro e de desespero, para acolhermos clamores por justiça e para fazermos coro à exigência de uma resposta humana e divina para o sofrimento.

Mas a minha amiga não é assim. Ela não nos quer para isso. Ela sorri, diz palavrões, queixa-se, consola quem a vida lhe vai passando à frente e alimenta-se da amizade e do amor que as pessoas têm por ela. Também tem medo - deve ter momentos de pânico - e tenho a certeza que chora várias vezes ao dia e todas as noites antes de adormecer, mas no meio da escuridão da doença aquilo que procura são pontos de luz em todo o lado. Todos os dias, da cama do hospital, ela espreita o estado do mar pela beachcam. E desconfio que aquilo que lhe custa mais sofrimento - a seguir aos dias passados sem as filhas e sem o marido - é saber que vai passar um verão sem ir à praia. O mar, as pessoas e a família, são a sua santíssima trindade.

É inevitável não relativizar os nossos sofrimentos assim como as frustrações e crises dos nossos filhos, quando ao nosso lado está uma mãe a viver assim. Parece que deixamos todos de ter o direito de sofrer. E a verdade é que não temos o direito de sermos tão mariquinhas com tantas merdices. A queixarmo-nos de tantas amarguras, de cansaço, de desilusões ou insegurança que o dia-a-dia nos traz e tantas vezes nos dá vontade de atirar a toalha ao chão. Parece que não temos esse direito, não só pelo exemplo da minha amiga mas pelo exemplo e sofrimento de milhões de amigas. E o pior é que só nos apercebemos disso quando as amigas nos entram pela casa a dentro com uma serenidade desconcertante. Até lá, vivemos de cabeça baixa.

Viver custa, dá trabalho e magoa, grande parte do tempo. Somos frágeis - é a nossa condição. Mas só quando a vida nos é posta nas mãos e tomamos consciência de que vivemos no parapeito de um arranha céus é que nos apercebemos da beleza do outro lado. Sabem o que é que me custa mais do exemplo da minha amiga, aquilo que me comove dia sim dia sim? É o sofrimento de mãe da minha amiga. Uma mãe acha que não pode ser atirada para uma cama de hospital quando a filha ainda tem 9 anos, acha que a criança não percebe o abandono. É isso que custa mais. É a fragilidade de ser mãe que agudiza o sofrimento, como choques elétricos.

Hoje, estava eu numa videochamada com a minha amiga - entre a escola dos nossos filhos e a cama do IPO -, quando aparece a Margarida, uma criança de 12 anos que ela conhece desde bebé. "Ela manda-me mensagens a saber como estou", diz-me baixinho a minha amiga. Chamei a criança que quando a vê a minha amiga no ecrã só consegue acenar até se desfazer num pranto. A minha amiga fez um sorriso de mãe e consolou-a em direto do IPO.

Não sei se o sofrimento faz ou não sentido, mas sei que o sofrimento da minha amiga me faz querer ser melhor pessoa. Um dia de cada vez, talvez lá chegue.

Jurista

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