Opinião

Uma faixa, uma rota e um pequeno monte de terra

(MARIO CRUZ/LUSA)
(MARIO CRUZ/LUSA)

As relações diplomáticas entre Portugal e a China saem claramente reforçadas com a recente visita oficial do Presidente chinês a Portugal. Apesar das diferenças culturais referidas nos discursos presidenciais, os pontos de convergência foram reforçados fazendo antever uma relação construtiva, rentável e sustentável para ambas as partes.

Em 2018 comemora-se o 40.º aniversário da reforma e abertura política da China, momento que marcou uma viragem na sua história, permitindo abertura ao mundo de uma forma cada vez mais ampla, com o fim de converter a China numa “potência global” e num “Estado socialista moderno”, até meados do século XXI. É significativo que um ano depois, já em 2019, se comemore os 40 anos das relações bilaterais Portugal-China, pelo que de histórico entendimento tal representa.

Das emendas constitucionais aprovadas em 2017 e que deram o enquadramento formal à agenda estratégica para o país, está patente a aspiração de uma nova era de construção de uma sociedade chinesa “moderadamente próspera em todos as suas dimensões”, sendo que o termo “moderadamente” é sempre relativo. Destaco 4 eixos presentes na agenda e que me parecem fundamentais:

O desenvolvimento económico cujo crescimento médio-alto posiciona a China de forma continuada como a segunda maior economia mundial (e primeira em termos do PIB per capita), contribuindo, atualmente, com mais de 35% para o crescimento mundial.

A preocupação social com uma população de 1,42 biliões, que representa cerca de 20% da população global e que precisa de lutar firmemente contra a pobreza, em favor da promoção social.

A preocupação ecológica que se manifesta no combate à poluição, com especial foco na redução das emissões dos principais poluentes, no ajustamento da estrutura de indústrias, no fortalecimento da conservação de energia, na expansão da cobertura florestal e em projetos de restauração de ecossistemas ecológicos.

O Governance e empresas públicas, cujas reformas no âmbito do governance, nomeadamente no sentido de uma maior transparência, regulamentação e anticorrupção bem como os esforços de reestruturação e desalavancagem nas empresas de capital público que assegurarão a evolução orgânica para empresas mundiais, competindo globalmente.

Estas 4 dimensões consubstanciam uma estratégia concertada que, com resiliência e persistência, se vai construindo. Não é instantânea nem é demorada, dá para entender que tem uma aceleração própria como todas as mudanças que se desejam sustentáveis.

Dizia Xi Jinping dirigindo-se ao Congresso em Fevereiro de 2017 que para traduzir esta agenda em realidade, não devemos apressar baseando-nos em fantasias, nem ser guiados por falsidades. Há que seguir trabalhando, constantemente e de forma realista. E citava um provérbio chinês: “Uma torre de nove andares começa sempre com um pequeno monte de terra”. A citação deste provérbio deixa patente que esta vaga de fundo tem raízes culturais, neste caso chinesas, profundas.

A China é uma civilização milenar, cujos traços passam de geração em geração, e que desenvolveu uma cultura de sabedoria, organização, resiliência muito ligadas a valores tradicionais como a honra e a justiça, a moralidade das pessoas e das instituições, o respeito nas relações sociais, com ênfase na família e nos anciãos. A simbologia de um dragão a soltar fogo pelas narinas, representa a energia que destrói, mas que, ao mesmo tempo, permite o renascimento, a transformação, a evolução e a mudança. Como sociedade, como colectivo, a China demonstra a possibilidade de um convívio equilibrado entre tradição e a modernidade.

Conhecer a China e a sua Cultura mais além da sua pujança económica é um requisito para todos os que reconhecem este país enquanto protagonista de relevo na cena global e incontornável seja no mundo empresarial, seja no mundo político. Na realidade, a China permanece como um grande desafio para qualquer empresa que pense global. Citando Sun Tzu, o estratega militar da Arte da Guerra: “Os que ignoram as condições geográficas – montanhas e florestas – desfiladeiros perigosos, pântanos e lamaçais – não podem conduzir a marcha de um exército.”

Ciente disto mesmo, a AESE Business School mantém uma relação intensificada a partir de 2012 com a China, através da CEIBS – China Europe International Business School. Entre outras iniciativas, no âmbito do PADE – Programa de Alta Direção de Empresas, os participantes tomam contacto com a cultura e economia chinesas, durante uma semana intensiva em Xangai. Estes executivos e empresários portugueses têm assim uma oportunidade singular de explorar possibilidades de fortalecimento da estratégia das suas empresas, através da AESE Business School ao estabelecer o interface não apenas com académicos chineses e europeus na China mas também com empresas chinesas e portuguesas com presença local. Esta forma sistemática e continuada de relacionamento, tem-se revelado como o primeiro passo no estabelecimento de laços profundos, duradouros e lucrativos em termos de negócios, numa lógica win-win, sendo que o desenvolvimento destas ligações, como todas, requer tempo, confiança e compromisso.

Entender que o tempo é o adequado e que a confiança se constrói a partir de “um pequeno monte de terra” é a primeira lição a reter com esta visita de Xi Jinping a Portugal e com a contínua proximidade de empresários, executivos e académicos de ambos os países. A segunda é entender o significado profundo da proposta da iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”: uma abordagem colaborativa alavancada nas vantagens comparativas dos respetivos países.

Maria de Fátima Carioca, Dean da AESE Business School

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