Opinião

Uma imensa minoria

Fotografia: David W Cerny/Reuters
Fotografia: David W Cerny/Reuters

Partidos de poder são camaleões que se vão ajustando às mudanças. As várias clientelas a que atendem tiram-lhes, porém, velocidade e maleabilidade.

Houve, em tempos, uma estação de rádio, a XFM, cujo lema era “para uma imensa minoria”. Dedicava-se ao que podemos chamar música alternativa. A sua vida foi efémera. A minoria não seria tão grande quanto o esperado e/ou não existira capacidade de transformar o número de ouvintes em receita suficiente para assegurar a sobrevivência. Será um problema do negócio já que, por exemplo, a Amazon faz uma parte razoável das suas receitas a servir as franjas mais “radicais”, disponíveis para pagar acima da média para terem acesso a produtos difíceis de encontrar. O comércio eletrónico (Internet mais logística), solucionou uma falha de mercado: se não fosse assim, poucas lojas arriscariam ter em stock bens com procura tão reduzida.

No espetro político passa-se algo semelhante. Os partidos de poder “vendem” as ideias e propostas que respondem a anseios da maioria do eleitorado. Nos extremos fixam-se os partidos mais pequenos, porventura com convicções mais fortes e que, por isso, estão disponíveis para pagar o alto “preço” da exclusão” do poder. No sistema, tudo continuaria mais ou menos estável, assim os “clientes” não mudassem de opinião.

Voltemos à economia e ao mercado. Se, com o tempo, os gostos mudam (e, como dizia o poeta, nem sempre se mudam como soía), mais depressa mudam a maneira como vemos as coisas (informação; moda), como lhes encontramos atrativos e virtudes a que antes éramos cegos. No extremo, como Steve Jobs, pode-se jogar por antecipação e oferecer aquilo que intuímos o consumidor vai precisar (e tratar de o convencer disso mesmo).

Os partidos de poder são camaleões que se vão ajustando às mudanças. As várias clientelas a que atendem tiram-lhes, porém, velocidade e maleabilidade. Conseguem acompanhar a renovação, mas já não as roturas. Ficam paralisados no meio. Se a nova procura não for respondida pelos partidos mais radicais mas, ainda assim, tradicionais e integrados no jogo político, haverá espaço para novas formações que, dependendo da mudança nas preferências e nas perceções do eleitorado, poderão tornar-se dominantes. Ou não. Tal como na economia.

 

Alberto Castro, economista, professor universitário

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